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Edição nº 1654 - 2 de setembro de 2020

Elsa Ligeiro
AMÁLIA - FOI DEUS

Amália e os poetas é um gigantesco livro de Vítor Pavão dos Santos, que apresenta um laborioso trabalho de dedicação do autor a uma voz que marca todo o século vinte português.
Amália Rodrigues emociona-nos com a intensidade de uns acordes e de palavras que não raras vezes, fora da sua voz, se apresentam com alguma fragilidade poética, mas com Amália serão eternamente intensas e geniais.
Nas suas 872 páginas, o livro regista e apresenta os poetas que Amália escolheu para cantar. Mesmo todos, desde os (hoje) quase clandestinos Rodrigo de Melo e Pereira Coelho, até ao José Carlos Ary dos Santos, Camões ou David Mourão-Ferreira.
“Com que voz”, será, atrevo-me a afirmar, ainda mais do que os Lusíadas a glória eterna de Luís Vaz de Camões, mas também a de Amália Rodrigues e Alain Oulman. E para a história da música portuguesa uma Trindade-Mais-Que-Perfeita.
Se Alexandre O’Neill e a sua “Gaivota” nos emocionam há décadas, a “Formiguinha Bossa Nossa”, do mesmo O’Neill, que Amália tão bem cantou, com música do genial Alain Oulman, é o esplendor da linguagem poética. Plena de ironia, redução verbal e a graciosidade que só a Mariquinhas, esse dar de beber à dor, de Alberto Janes, faz sombra.
Há um poeta que na voz de Amália se agiganta e tenho como um dos meus favoritos, eu que não aprecio os livros de José Carlos Ary dos Santos, sou uma piadosa devota dos seus poemas na Voz de Amália “Meu Amor, Meu Amor/ Meu corpo em movimento/ Minha voz à procura / Do seu próprio lamento…”; é, sem nenhuma dúvida, um dos temas mais belos da música portuguesa. Mas sem a Voz da Amália, outra será a minha opinião. Até “Alfama”, também palavras do Ary dos Santos, é um dos fados que facilmente canto em casa, num registo capaz de indignar o melhor dos meus vizinhos.
Se Amália com as palavras de David Mourão-Ferreira criam alguma angústia, as que “roubou” aos poetas brasileiros estimulam-nos e alargam o português: Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Dorival Caimmy, e esse poeta tão pouco conhecido em Portugal “o Cisne Negro” da poesia brasileira: Cruz e Sousa, de quem a Amália gravou, em 1951, “Saudades Sem fim” e “Rouxinol”.
Seguramente, ninguém melhor do que António Variações e o seu “Anjo da Guarda” que Vítor Pavão dos Santos também recorda no livro, para representar cada português na sua Declaração de Amor a Amália.
“Dei o teu nome à minha Terra / Dei o teu nome à minha ave / Dei a tua vida à primavera / E dei a tua voz à eternidade”.
Embora ninguém apresente com mais dignidade os sentimentos de Amália que as suas próprias palavras escritas; que a Editora Cotovia publicou em livro, no ano de 1999, e que respeitando a inteligência de Amália, intitulou apenas de “Versos”.
“Estranha Forma de Vida” é todo um testamento a uma comunidade portuguesa espalhada pelos cinco continentes; e a confirmação sempre visível do destino fatalista a que Amália sempre foi devota.
Ou, como escreveu Alberto Janes, para a Amália cantar:
“Foi Deus
Que deu voz ao vento
Luz ao firmamento
E deu o azul
Às ondas do mar.

Fez poeta o rouxinol
Pôs no campo o alecrim
Deu as flores à Primavera
Ai
E deu-me esta voz a mim”.
A Voz de Amália: que é depois do sebastianismo o maior mito português.

02/09/2020
 

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