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Edição nº 1740 - 4 de maio de 2022

Guilherme D'Oliveira Martins
O DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

O dia 5 de maio foi oficialmente estabelecido em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) - parceira da UNESCO desde 2000, que congrega os povos que têm a língua portuguesa como um dos fundamentos da sua identidade - para celebrar a língua comum e as culturas língua portuguesa. A língua portuguesa é uma das línguas com maior expansão no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, sendo ainda a língua mais falada no hemisfério sul. O português é assim hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e uma língua com uma forte extensão geográfica, prevendo-se um desenvolvimento significativo da sua influência até ao final do século, com especial incidência no Atlântico Sul. Os Dias dedicados às línguas faladas em todo o mundo celebram anualmente a importância do multilinguismo e da diversidade cultural como fatores de paz e de respeito mútuo, bem como catalisadores da Educação, Ciência, Cultura e Comunicação, finalidades essenciais da UNESCO. Tais iniciativas constituem oportunidade para sensibilizar a comunidade internacional para a história, a cultura e o intercâmbio e cooperação entre as diferentes línguas. O multilinguismo é, aliás, um valor central das Nações Unidas e uma área de importância estratégica para a UNESCO, como fator essencial para a comunicação e entendimento entre os povos, suscitando a unidade, a diversidade, a compreensão internacional, a cooperação, a troca de experiências, o respeito mútuo e o diálogo.
O idioma é essencial para a afirmação de uma identidade, mas também para enriquecer o diálogo entre culturas e civilizações. A língua portuguesa projetou-se em todos os continentes. Quando falamos dela, consideramos uma longa história, a partir do galaico-português, língua antiga, que cedo alcançou assinalável maturidade. O português ou o espanhol jamais foi dialeto um do outro. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como a dos moçárabes, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico, pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos com a cultura quinhentista. Devemos falar de uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas. Falamos de várias cul-turas, pela natureza própria da diversidade política, como língua de unidade nacional, como língua segunda, ou como língua integradora no complexo mosaico étnico e geográfico – ora em África, ora no Brasil. E quando referimos várias línguas, reportamo-nos ao desenvolvimento dos crioulos, de raiz portuguesa, mas com uma vida própria. Lembremo-nos de Cesária Évora ou de Mário Lúcio e encontramos pontes essenciais de diálogo. De facto, sem idealizações ou simplificações, e muito menos paternalismos, a partir de exemplos concretos, trata-se de uma “língua coincidente” que deve ser vista como realidade em movimento permanente.
Temos assim de abrir espaço para a diversidade linguística, estabelecendo pontes entre os vários idiomas e as várias culturas. Não podemos esquecer que as chamadas Humanidades irão ganhar uma configuração cada vez mais fortemente relacionada com todas as disciplinas científicas. Como investigar as literaturas e as artes sem considerar a diversidade de culturas e línguas? Infelizmente, há quem julgue que a avaliação académica deve ser uniformizada e redutora, o que é o contrário da compreensão da diversidade. E não se pense, pois, que a tendência futura é para a existência de uma única língua franca. Num mundo globalizado, não falamos da língua portuguesa como uma realidade fechada, mas de uma identidade aberta e dinâmica, e aí está a sua riqueza e a sua virtualidade.
Como disse Sophia de Mello Breyner: «Me dói a lua me soluça o mar / E o exílio se inscreve em pleno tempo» (Livro Sexto, 1962). Como Unamuno bem pressentiu e Eduardo Lourenço interpre-tou, com rigor e perfeição, somos feitos de lirismo e de história trágico-marítima – sem esquecer o picaresco, o escárnio e o maldizer. Encontramo-nos nessa realidade multiforme desde a poesia trovadoresca à rica poesia contemporânea, passando por Camões, Sá de Miranda, Bocage, Garrett, Herculano, Antero de Quental, João de Deus, Cesário, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e todos mais… Portugal, como palavra, é uma eterna convergência da lembrança e do desejo, do amor e da provação, e a língua portuguesa, espalhada pelo mundo foi-se construindo nessa pluralidade e nessa complementaridade… A língua portuguesa, temperada com mais açúcar ou mais especiarias, é um traço de união e de diferenciação. E se dúvidas houvesse João Guimarães Rosa leva-nos em busca da terceira margem, Baltazar Lopes da Silva introduz-nos nas diferenças e nos segredos dos crioulos, Mia Couto reinventa-nos em permanência. Raduan Nassar interroga e confronta as raízes em «Lavoura Arcaica», enquanto Rubem Fonseca usa como matéria-prima o drama quotidiano… Eduardo Lourenço é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Mas há ameaças e perigos, e até indiferença e acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Língua de várias culturas, cultura de várias línguas – eis um caleidoscópio incompatível com uniformidade ou paternalismo. Prevalecem o pluralismo e a diversidade. Por isso, Garrett, Antero e Cortesão aspiraram a um patriotismo prospetivo, em que o fundo da língua portuguesa se afirma como exigência aberta e plural.

04/05/2022
 

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