Cerca de 60 por cento da população portuguesa sofre de dispepsia, que é o mesmo que dizer que sofre de "má digestão", "digestão difícil" ou "indigestão", o que se traduz numa "dor ou desconforto persistente ou recorrente localizado no abdómen superior, relacionada, ou não, com as refeições."
Também em Portugal, anualmente, surgem cinco mil novos doentes de cancro do cólon e recto e, por dia, morrem nove pessoas devido a esta doença, tendo a mortalidade subido cerca de 80 por cento nos últimos 20 anos.
Os números são assustadores, mas foram eles que deram o mote ao à VII Reunião Regional do Centro da Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva (SPED) que se realizou nas Termas de Monfortinho.
Gastrenterologistas e clínicos gerais debateram o estado da arte, das técnicas de diagnóstico e tratamento da dispepsia, o que provoca "dor abdominal alta, náuseas e vómitos, saciedade precoce, enfartamento pós-prandial e digestões pesadas e/ou eruc-tações repetidas".
Porém, muitas das pessoas que são acometidas desta doença optam por auto-medicar-se, mas mesmo assim, entre um a 12 por cento da população em geral procura o seu clínico assistente para alívio das queixas dispépticas, sendo esta doença responsável por quatro a 40 por cento de todas as consultas realizadas no ambulatório.
De acordo com José Manuel Romãozinho, presidente desta reunião e vice-presidente da SPED, "estas discre- pâncias percentuais reflectem não só a diversa situação sócio-cultural das diferentes populações, mas também a maior ou menor acessibilidade local à fruição de cuidados médicos. Como quer que seja, ao consumir uma porção apreciável dos recursos orçamentais da medicina ambulatória, tanto em consultas e exames complementares, como em medicamentos, e ao ocasionar elevados prejuízos sociais indirec tos, relacionados, sobretudo, com a propensão demonstrada por estes doentes para o absentismo laboral", concluindo que "a dispepsia constitui, efectivamente, um problema maior de Saúde Pública".
As queixas do doente dispéptico podem resultar, ou não, de uma causa orgânica, como uma úlcera gástrica e/ou duodenal, ou de um tumor, muito em particular, de um cancro gástrico. Assim, "todos os dispépticos de idade igual ou superior a 40 anos, bem como aqueles que, independentemente da idade, apresentem sintomas de alarme (falta de apetite de comer, perda de peso e/ou sinais de anemia) devem, de imediato, ser submetidos a uma endoscopia digestiva alta", aconselha o médico.
No âmbito do aparelho digestivo, foram também abordados neste encontro, no que respeita à prevenção do cancro do cólon e recto, os resultados das experiências nacionais de rastreio, as experiências estrangeiras e a proposta de rastreio da SPED, apresentada em Abril passado ao Ministério da Saúde, que prevê o rastreio, em três anos, a 100 mil beneficiários do Serviço Nacional de Saúde. Uma iniciativa que irá mobilizar mais de 400 médicos em todo o País e que poderá ser suportada por um fundo estimado em cerca de 3.425 milhões de Euros por cada 50 mil rastreados, um valor que permite uma poupança superior a 50 por cento em relação aos preços praticados actualmente pelo Ministério da Saúde nos seus hospitais.
A luta contra o cancro do cólon e recto decorre à escala internacional, sobretudo nos países desenvolvidos, onde a doença tem uma expressão preocupante, uma vez que em cada ano surgem 950.000 cancros do intestino, que levam à morte de meio milhão de pessoas, tendo já conduzido a alterações nas políticas de Saúde. Na Europa, Portugal é um mau exemplo, pois é dos poucos países que não asseguram o rastreio do cancro do cólon e recto à população.
Lídia Barata |