Entre produtos regionais e artesanato, os visitantes do certame puderam assistir, ao longo do passado fim-de-semana prolongado, a muita animação pelas ruas da vila
As ruas de Belmonte, a vila do distrito que ostenta o título de aldeia histórica, estão repletas de gente, desde o largo do castelo, lá no alto, até ao do pelourinho, por onde se estendem as barraquinhas com artesanato e produtos regionais e onde o grupo de animação Viv’Arte parece ter improvisado um enorme palco. Por entre as bancas com queijo da serra, enchidos, produtos como linho ou cerâmica, salgados e doces, ouve-se o som de uma gaita-de-foles e de tambores e surgem, aqui e ali, personagens da época medieval que parecem ter sobrevivido ao longo dos anos... Um bobo que faz traquinices e arranca gargalhadas aos visitantes, um homem de negro que passeia a sua águia, cavaleiros junto ao castelo, belas donzelas perdidas...
Atrás das bancas, os artesãos, que são cerca de quatro dezenas, estão todos vestidos a rigor, de vestimentas compridas, brancas, bejes ou castanhas, também alusivas à época medieval. Há bijuteria, feita à mão, fruta variada, artigos em cerâmica e barro, entre muitos outros produtos, que constituem uma autêntica mostra do que se vai fazendo pelo concelho belmontense. São centenas os visitantes nesta segunda edição da Feira Medieval do Artesão, organizada pela empresa municipal de turismo em parceria com a Câmara Municipal, onde se pretende, segundo o presidente da empresa, Germano Fernandes, "três dias dedicados ao passado e a actividades artesanais". E o passado promete estar bem presente, em vários pormenores, desde os copos em barro que os visitantes usam para consumir bebidas, pendurados ao pescoço, através de um cordel que liga os lados do recipiente, à música das gaitas-de-foles e tambores, aos utensílios utilizados para petiscar na Taverna d’El Rey, um espaço com mesas e bancos onde se pode apreciar o melhor da gastronomia regional, até às dezenas de figurantes, do Viv’Arte, que garantem animação permanente.
Duas das grandes novidades da feira estão em estender-se por mais um dia, aproveitando o feriado, e na disposição das bancas. O ano passado concentraram-se todas no largo do castelo, mas desta vez a organização optou por aproveitar o espaço até ao pelourinho. Outra está nos espectáculos de animação. Na edição anterior houve um auto de fé e um assalto ao castelo, que estão de volta este ano, mas com versões diferentes e nesta há mais um, o torneio medieval.
"Isto é uma autêntica lição de história para os mais pequenos e muito interessante para os mais crescidos", afirma uma das visitantes do certame, Carla Fonseca, da Guarda, que trouxe este sábado à noite os seus dois rapazes, de sete e dez anos, até Belmonte. "Já vai começar. Vamos ver os cavalos", afirma o mais velho, ao puxar a mãe em direcção ao castelo. É que está prestes a iniciar-se o primeiro espectáculo de animação da feira: o torneio medieval, que vai envolver dois cavalos e vários supostos cavaleiros num confronto de armas.
Público agradado com a estreia do torneio medieval
No largo do castelo, perto da igreja de S. Tiago, o grupo Viv’Arte improvisou uma liça, espaço onde na época medieval aconteciam os torneios, que delimitou através de cordas e de escudos. É aqui que vai ter lugar o espectáculo, que, explica Olivier, do Viv’Arte consiste num "torneio entre dois grupos, ou, como se dizia na altura, entre duas casas". Olivier prepara o cavalo que vai montar, enquanto que, nas quatro tendas ali montadas, também de aspecto medieval, há um enorme corropio, um vai e vem de figurantes que se preparam para o espectáculo. Junto das tendas, há dois mochos e duas águias, que vão atraindo as atenções.
E eis que, um a um, entram em cena os vários cavaleiros que se vão defrontar. Uns são designados de amarelos e os outros de negro, vestidos com as cores que os identificam. Vão largando berros de provocação, empunhando espadas, de vários tamanhos. Uns fanfarrões, outros aparentemente muito maus, alguns convencidos e outros visivelmente fracos... E vão lutando, em confrontos de um para um. Parece valer tudo: espadas grandes, pequenas, lanças, ratos verdadeiros para assustar o adversário e até mesmo atirar areia aos olhos... Há espadas que chegam a voar e cavaleiros com quedas no mínimo espectaculares. Lá no meio, aparece constantemente o bobo para atrapalhar. Esta é a personagem que mais gargalhadas provoca entre o público, pelo menos entre os mais pequenos. "Olha o palhaço", vai repetindo uma criança da assistência, a cada nova entrada do bobo. "Palhaço és tu", responde-lhe a certa altura o próprio bobo, enquanto um dos cavaleiros, de espada em punho, o expulsa da liça entre pontapés... Voltam a estalar risos entre a assistência.
No final de cada confronto, o grupo vitorioso festeja, entre berros estridentes, enquanto o que perde insiste em arrancar "uuuhhhs" da assistência. A dada altura, entram os cavalos. Olivier doma o seu com com perícia. Dá voltas e voltas à liça, faz o cavalo deitar-se completamente a uma ordem sua e depois faz com que levante as patas dianteiras. O público gosta e aplaude. Vai ter um adversário, pertencente ao grupo dos amarelos. Os outros figurantes saem de cena. Parece que é este confronto que vai resolver tudo.
Primeiro com lanças compridas e depois com espadas, os cavaleiros tentam derrubar-se um ao outro. O de preto, num gesto rápido, consegue fazer cair do cavalo o cavaleiro amarelo, que, mesmo no chão, não desiste. Ergue a espada, dirige-se para o adversário e atinge, supostamente, o cavalo, que, a uma ordem de Olivier, se aninha no chão.
Representam de tal maneira, que arrancam "ahs" de espanto às centenas de pessoas que ali se concentram para assistirem ao espectáculo de animação.
Já os dois sem cavalo, defrontam-se com espadas. A força com que batem as armas é tanta que as espadas fazem mesmo faísca. "Até faz faísca, mãe", observa um miúdo, sempre atento e muito admirado. "Antigamente, os homens faziam torneios para defenderem a sua honra, as suas famílias, as terras, as mulheres...", explica-lhe a mãe. Acaba por ganhar o cavaleiro do grupo dos amarelos...
Sandra Invêncio |