
O motorista do autocarro, Fernando Serra, vai repartir as culpas, juntamente com a condutora do veículo ligeiro, Carina Rodrigues, do acidente, ocorrido a 5 de Novembro de 2007, entre um veículo ligeiro e um autocarro que transportava os alunos da Universidade Sénior de Castelo Branco (USALBI), que vitimou mortalmente 17 dos passageiros. Esta conclusão surge, após uma reconstituição do acidente, que revelou que ambos os condutores terão contribuído para a colisão entre os dois veículos e para o despiste que se seguiu. O motivo desta conclusão parte da "invasão" feita pelo condutor do autocarro, em cerca de 20 centímetros, para a semifaixa de rodagem da esquerda, que contribuiu para uma "atrapalhação" da condutora do ligeiro, apesar de haver espaço suficiente para esta passar e efectuar a manobra de ultra-passagem.
"Vimos, claramente, que o autocarro invadiu, em cerca de 20 centímetros, a semifaixa da esquerda, onde o veículo ligeiro circulava e iniciava a manobra de ultrapassagem", disse aos jornalistas João Carlos Marcelo, advogado de defesa dos familiares de 14 vítimas mortais e de sete sobreviventes ao acidente, momentos depois de ter terminado a reconstituição na A23, que decorreu durante cerca de hora e meia, na manhã da passada sexta-feira, no exacto local onde este se deu, próximo de Vila Velha de Ródão.
Entre as 10h30 e as 12 horas, foi reconstituído o segundo anterior ao primeiro embate do veículo ligeiro na lateral do pesado. Para isso, um autocarro com características semelhantes ao acidentado, foi colocado na via, bem como um Ford Fiesta, idêntico ao original, que recriaram esse momento, que, na prática, corresponde a 26 metros de estrada.
"Esta reconstituição foi muito importante, na medida em que foi muito esclarecedora. Ficou evidente que, embora tivesse espaço para passar na manobra de ultrapassagem, a condutora do ligeiro atrapalhou-se e, por imperícia ou outro motivo qualquer, embateu na lateral do autocarro", esclareceu aos jornalistas João Carlos Marcelo.
No momento em que se deu o primeiro embate, "o autocarro estava com a roda traseira ainda na semifaixa da esquerda e, a roda da frente já na semifaixa da direita, o que faz um ângulo de 1,5 graus, e circulava a cerca de 1,51 metros da berma da direita, quando as regras do Código da Estrada nos dizem que se deve conduzir o mais à direita possível", precisou ainda João Carlos Marcelo.
A manobra de recuo foi feita por etapas, ao longo da hora e meia, onde se vê as rodas da esquerda do autocarro pisarem e passarem as marcações, feitas por dois pinos de sinalização, que representavam o traçado descontínuo.
De recordar que em Setembro de 2008, o Ministério Público acusou Carina Rodrigues, condutora do veículo ligeiro, de homicídio por negligência por falta de atenção e cuidado, durante a manobra de ultrapassagem.
Com esta reconstituição, um novo dado é acrescentado ao processo, já que, agora, esta culpa será dividida entre os dois condutores. "O juiz pode determinar que ambos tenham culpa em iguais proporções ou não. Mas, a nós, basta-nos ter cinco por cento da culpa para ser condenado".
Indemnizações repartidas entre as duas seguradoras
Na sexta-feira surgiu também uma nova realidade para as seguradoras envolvidas. Caso o motorista do autocarro seja considerado culpado é accionado o seguro de responsabilidade civil do veículo pesado para o pagamento das indemnizações. "O nosso interesse acima de tudo é chegar à verdade dos acontecimentos, mas com esta nova acusação, há mais garantias de que os familiares das vítimas e os sobreviventes ficam muito mais protegidos no que toca às indemnizações, já que serão duas as seguradoras a assumir responsabilidades", explicou à Gazeta o advogado de três vítimas do acidente.
Segundo a Gazeta conseguiu apurar, o seguro da condutora do ligeiro tinha sido renovado meses antes do sinistro de 120 mil para 600 mil euros, valor que, mesmo assim, é insuficiente para fazer cobro ao total das indemnizações a pagar.
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