José Dias Pires
O FUTURO
Eu sei, passamos a vida a falar sobre vários pares de coisas aparentemente certas, mas, afinal, tristes e amedrontadoras: a luz e a escuridão; o dia e a noite; a verdade e a mentira; o presente e o futuro; a obstinação e o conformismo.
E, quando o fazemos, bailam-nos na cabeça sensações agudas e ilusões redondas: namoros de puro prazer de quem deseja imaginar o futuro.
Sem saber o lugar que, no futuro, me está destinado, os meus pensamentos passam em revista alguns dos momentos mais marcantes da minha vida, como se fosse necessário deixá-los em depósito para garantir o respeito e afastar o medo: os afagos do meu avô, para me lembrar que o seu sorriso envelheceu comigo; a luz do corredor acesa e a porta do quarto entreaberta à espera do meu pai; a toalha na mesa e a comida pronta à espera de nós; o disco no gira-discos a tocar músicas proibidas à espera do futuro.
Em cada pedra da rua, onde tropecei, os prognósticos foram sempre evidências da memória que se antevia no longínquo futuro. Eu, direi melhor, nós, fomos conduzidos pela amnésia subornada pelos infinitos deuses da alegria, desejosos de poder encontrar um qualquer João ou uma qualquer Joana que quisessem acompanhar-nos na destruição da Confraria do Medo, e gerar a última hipótese de igualdade onde tudo e todos, sem saber dos ponteiros dos relógios ou da sua ausência, terão existência igual até ao fim, e onde todas as perguntas terão resposta.
Nesse lugar, haverá, em todas as casas, pequenos quartos onde as crianças desenham quadros imaginários cujos traços de tudo aquilo que recriam é só futuro: o pó, a lama, as pedras, o corpo todo, onde o prazer está nas manhãs e nas tardes, antes de dormir, naquele resquício de tempo em que se convive com o silêncio.
É nesse patamar que todos parecemos uma família, uma pequena família à espera do que virá. Ou então, na ausência da esperança, um grupo de peões num tabuleiro de xadrez à espera de contribuir para a vitória de um rei que finge ser capaz de transformar uma monarquia numa república, esquecendo a música da vida, a arte de construir novas durações nas quais, nos limites da melodia, se desprezam os segundos.
Eu sei, passamos a vida a descobrir que o passado pode estar aqui, sem ser lembrado, e o futuro ali, sem ser previsto, no momento oportuno, no acontecimento inesperado, no encontro determinado pelo acaso.
A maior parte de nós, abúlicos, amorfos, aceitamos permanecer estáticos, impávidos e a ser conduzidos a um ramerrame monótono, fatigante, cheio de desesperanças consolidadas e cujo futuro não conseguimos vislumbrar no outro lado das esquinas.
E porquê este acomodar-se ser apenas sombra, cinza, entulho?
É que, com o futuro obrigamo-nos a olhar para as crianças e para os jovens que nele acreditam.
Eles, se não sabem, sentem que o nosso tempo não é só de paixão, é também de amor, e que construir não é miragem é urgência, não é exploração é partilha, não é discurso é ação, ação que deve obrigar-se a olhar para os velhos que em noturnas esperas, desesperam pelo dia claro, azul, verdadeiro e solidário onde ninguém tenha medo de se olhar no espelho todas as manhãs, porque se sente capaz de partilhar todas as responsabilidades e participar em todas as soluções.
É assim o futuro: um mistério, ao mesmo tempo sedutor e assustador, que mora naquele recanto da imaginação onde não há limites nem barreiras, onde o sobrenatural se confunde com o comezinho e onde nada é impossível para quem voa, para quem sonha.
Desculpem a presunção: continuo a sonhar com um futuro melhor.