Joaquim Bispo
OS POMBOS
A meio da manhã, os retardatários passeiam canídeos em aflição urinária. Boss, um labrador creme, e Gugu, um podengo malhado, encetam a análise do estado do mundo, depois de terem analisado o cheiro do rabo um do outro.
- Estava à rasquinha - queixou-se Gugu. - A minha dona fica a ver séries pela noite adentro... Estava a ver que fazia na carpete.
- É uma chatice - concordou Boss. - O meu é Internet. Acho que não me dá o devido valor. Se não fosse eu, ficava fechado em casa e nem tinha coragem de meter conversa com a sua dona.
- Somos mais que úteis. Valemos cada tigela de ração que comemos. Sai-nos do corpo em companhia, em distribuição de carinhos, em dedicação, em melhoria da auto-estima deles.
Dando voltas largas e consecutivas sobre a praceta, um bando de pombos faz o segundo treino de voo diário. No rés-do-chão do 14, abria-se entretanto uma janela e uma mulher na casa dos sessenta atirava uma carcaça rija em pedacinhos para a calçada. Provavelmente, o grupo tinha vigias de atalaia, porque em não mais de cinco segundos a pequena nuvem de pombos estava a debicar energicamente o pão e a competir pelo pedaço maior. Para alguns, no entanto, a prioridade ia para a corte às fêmeas, arrulhando o habitual “rutututu-rutututu” ou o mais refinado galanteio “ouh-ouh-ouh”, que soava a grande e agradável assombro.
- Aqueles é que a levam boa, já viu? - observou Boss. - Vêm sabe-se lá de onde, vivem todos ao molho, passam o dia por aí sentados à sombra a acasalar ou a voar, e não precisam de ganhar a comida. Há sempre algum totó que lha dá.
- E daqui a bocadinho estão a sujar tudo. Olhe, já começaram. Agora é no chão; mais logo é carros, é candeeiros, é parapeitos de janela, é tudo. Só sabem fazer porcaria. Já viu as doenças que isto pode causar? Deviam era ir emporcalhar lá a terra deles!
- Agora inspiraram-me. É só um bocadinho, que já venho.
Dito isto, Boss, alongando a trela, afastou-se para o meio do relvado, deu duas ou três voltas sobre si próprio, já de patas traseiras abertas e traseiro esticado e, depois de evidentes esforços, largou quatro rolos pastosos e fumegantes. Gugu, entretanto, aproximava-se e fazia uma análise fecal sumária.
- Isto cheira lindamente. Não me diga que lhe dão bifes!
- Nada disso! - riu-se o outro. - É ração do hipermercado; mas da cara. Sabe a croquetes de vaca, com uns toques de guisado de frango. O meu dono não se poupa a despesas. Olhe, desta vez, apanhou o cocó. Quando a sua dona não está, finge que não tem saco. Mas, mesmo com falhas, sempre somos mais limpos do que os pombos, não acha? Deviam arranjar maneira de os controlar. Eu não digo matá-los, que eu não sou racista.
- Podiam dar-lhes anticoncecionais - concordou Gugu. - São muitos e de maus hábitos. Roubam-me a ração e deixam piolhos.
No dia seguinte, logo após o xixi, Boss passou a vasculhar os recantos do relvado. Junto à parede, percebeu um cheiro convidativo e avistou algo que parecia comida. Preparava-se para provar, quando uma bicada no escroto o fez ganir. Pousado na relva, a pouca distância, um pombo cinzento, irisado de verde no papo, olhava-o, em pose de desafio. Zangado, correu para ele, mas o pombo saltou e voou para detrás de um arbusto. Quando Boss lá chegou, estacou. O pombo cinzento, muito direito, estava pousado junto à cabeça de outro acastanhado, estirado e claramente morto. Do bico, escorria-lhe um muco azulado. Logo ali, um pedacinho do petisco que Boss se preparava para comer.
Por um momento, encarou o pombo cinzento, a raiva a desvanecer-se, um sentimento de gratidão a crescer. Sem saber como agradecer, baixou o olhar e afastou-se.
Daí a bocado, quando a dona de Gugu o trouxe à rua e ele encaminhava a conversa para as queixas habituais contra os desocupados vindos não se sabe de onde, que só sabem acasalar, voar, debicar e defecar, a conversa de Boss era outra.
- Não diga isso dos pombos, meu caro! A mim, não me incomodam. Temos de ser tolerantes com o modo de vida a que, em certa medida, estão coagidos. Não sabemos se um dia vamos precisar das competências deles. Por alguma razão os homens os põem nos altares. E os associam à paz e à liberdade.