Edição nº 1942 - 15 de abril de 2026

Maria de Lurdes Gouveia Barata
INCURSÕES POR ESTE ABRIL DE 2026

1. Um acaso, e feliz acaso, condicionou o início desta crónica, em consonância com o tempo de Páscoa, num a propósito de reflexão sobre um evento cultural que a merece: EXPOSIÇÃO A ÚLTIMA CEIA DE JESUS CRISTO «A ÚLTIMA MAS NÃO A DERRADEIRA» - COLECÇÃO DE MOISÉS FERNANDES – inaugurada no dia 28 de Março deste 2026, no Salão Polivalente do Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco. Poderá ser visitada até ao dia 26 de Abril de 2026. Muito recomendo aos meus leitores que não devem perder.
A Última Ceia surge no contexto de celebrações da Páscoa judaica, torna-se evento relevante num simbolismo de comunhão, de uma nova aliança entre Deus e a humanidade, num compromisso de fé e esperança. É uma mesa posta na memória do mundo. É uma partilha, embora nessa Última Ceia de Cristo houvesse um presságio de adeus. Está presente um traidor, mas há a presença de uma comunidade, porque a solidariedade coexiste com a maldade. E virá a luz depois das portas fechadas da noite. A arte não poderia ignorar este símbolo relacionado com o divino e o humano nas suas várias manifestações. Leonardo da Vinci, na sua pintura A Última Ceia fez nascer uma geometria de símbolos sobrepostos, que continuam a fascinar os estudiosos.
Porém, a minha proposta é falar da Exposição referida, a cuja inauguração assisti. Eis-nos perante mais de duzentas obras, representativas de A Última Ceia, sejam quadros, tapeçarias ou esculturas. Segundo as palavras de Moisés Fernandes, aludidas também na Folha de Sala, e por isso transcrevo: «Algumas peças desta colecção vieram de locais de viagens, e são momentos visitados na Capadócia (Turquia), Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), Europa e sítios como cidades e vilas deste Portugal. São «Últimas Ceias» espalhadas pelo Mundo».
O espaço expositivo foi cuidadosamente organizado, permitindo um percurso de apelo e encantamento, não quebrando a motivação de um diálogo interior de quem observa, pois a mesma temática é veiculada por suportes diferentes. As telas ganham outro corpo nas esculturas e desencadeia-se uma contemplação que interage com esta experiência sensorial, que desperta o intelecto e a emoção. A arte tem o poder de transformar uma visão do mundo, além de inspirar expressões de arte. Aqui temos a prova (que transcrevo da notícia que saiu do Jornal Reconquista, de 2 de Abril 2026, p. 21): «Uma das particularidades da mostra é a inclusão de peças originais feitas por amigos (pinturas e esculturas) e pelo próprio Moisés Fernandes que, com pedras de xisto recolhidas no rio Ocreza junto à aldeia de Taberna Seca, elaborou um conjunto significativo de esculturas». A beleza e a originalidade estão aqui presentes. vi obras que considerei muito criativas. Falo do que apreciei e me sensibilizou de forma especial, embora não me possa arrogar, nem minimamente, o direito de ser crítica de arte. Acrescento uma frase de Pablo Picasso: «A arte limpa da nossa alma toda a poeira do dia a dia».
Há uma conexão intrínseca entre a música e outras formas de arte. Aliás, a música é uma forma de arte e as artes dialogam. Ao que avalio de portentosa exposição a que assisti, não podia faltar uma abertura musical e lá estiveram os consagrados artistas Miguel Carvalhinho e Pedro Ladeira. Tudo se tornou fascínio como num poema de amor.

2. Falemos do 1º DIA DE ABRIL, QUE É O DIA DAS MENTIRAS: pregando-se partidas e espalhando boatos como formas de assinalar a data. Na Idade Média, o calendário era diferente do actual, chamado de calendário gregoriano. Naquela época, na França, o ano começava no dia 1º de abril, seguindo o calendário juliano. No entanto, o rei Carlos IX decidiu adoptar o formato moderno, em 1564, mas houve muitos que não aceitaram a mudança. Quem era resistente a essa mudança começou a ser chamado de bobo de Abril, sendo alvo de muitos piadas e brincadeiras, recebendo, para dar um exemplo, convites para festas inexistentes e a consequência era uma gargalhada. E o Dia 1 de Abril, como Dia da Mentira, começou a generalizar-se ao longo de décadas e décadas, criando uma mentira para enganar determinado público. Vou registar exemplos famosos, apenas dois: em 1957, a BBC exibiu uma reportagem sobre uma suposta colheita de esparguete em árvores na Suíça. Muitos espectadores acreditaram e chegaram a pedir instruções para plantar a sua própria árvore de massa. A mesma cadeia britânica voltou a surpreender em 2008 com um vídeo de pinguins capazes de voar. Haveria mais considerações interessantes a propósito deste Dia da Mentira, mas o espaço disponível para a minha escrita não o permite.
Todavia, neste contexto da Mentira, agora sem brincadeira e gracejo, deixo a referência aos perigos destes tempos que vivemos com as falsas notícias que dominam o nosso viver quotidiano, umas vezes porque a ignorância pretende agarrar o que for pior para lançar boatos, outras vezes porque a má fé e até a crueldade utilizam a mentira como arma poderosa, e neste caso estão sobretudo os poderosos. É só referirmos o que se passa com o Demente que mente para toda a gente do mundo inteiro e põe o mundo em perigo, associando-se outros parceiros, senhores da guerra, impantes de ganância, ufanos da própria indiferença perante o outro, porque apenas impera a sua avidez insaciável do Ter. Lembro a «Ode à Mentira» de Jorge de Sena, de que faço pequeno excerto para o actual contexto: «(…) Ferocidade, falsidade, angústia / são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso / o coração que apavorado em vós soluça / a raiva ansiosa de esmagar as pedras / dessa encosta abrupta que desceis. / Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo. /Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos? / Descereis, descereis sempre, descereis.»

3. Viremo-nos, porém, para a beleza e para o que dá júbilo: temos aí a PUJANÇA DA PRIMAVERA. Vem a luz do tempo da renovação e da esperança. Como falam os poetas e nós sentimos. Um desses poetas é António Salvado. Um excerto («Primavera», Jardim do Paço): «(…) Um pássaro atravessa / o céu do nosso espírito a cantar… / E eis a primeira rosa, a lídima promessa / que nos abriu os olhos e nos fez sonhar!».
De todas as flores que vão atapetar os campos e bordar os jardins, elevam-se, firmes e altivos, OS CRAVOS VERMELHOS DO 25 DE ABRIL, com o fulgor rubro da Alegria. Que se registe sempre.

15/04/2026
 

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