Edição nº 1942 - 15 de abril de 2026

Lopes Marcelo
OPÇÃO DE VIDA

Iniciámos no mês passado a abordagem da personalidade de um dos filhos mais ilustres de Castelo Branco, Francisco Tavares Proença Júnior.
Para além da sua vida e obra notáveis, interessa caracterizar a sua dimensão humana, a força do seu carácter, a coragem e a determinação em assumir uma opção de vida correspondente à sua vocação: dedicar-se à arqueologia.
De facto, em Fevereiro de 1907, rompe com a vontade de seu pai e abandona os estudos jurídicos na Universidade de Coimbra, comunicando tal decisão da seguinte forma:
“Com respeito e afecto, de forma decidida e leal venho dizer-lhe que abandonarei as aulas porque reconheci que estava perdendo o meu tempo. Eu não adianto nada em continuar matriculado na Faculdade de direito. […] Há um único meio de chegar a fazer alguma coisa e é dando largas às minhas tendências naturais, abraçando um estudo da minha predilecção. O ano escolar vai adiantado e é preciso decidir alguma coisa. […] Foi essa orientação do meu espírito, muito de estranhar na minha idade, que fez com que eu não imitasse a maioria dos rapazes que passam a sua mocidade em dissipações da saúde e do património, na devassidão mais completa e imperdoável. Se a memória me não atraiçoar, entre o que era antes e o que tenho sido, depois da doença, ou antes, depois da ida para Inglaterra… Até essa data eu era um rapaz como todos os outros. De então para cá mudei e quando por vezes olho bem para o fundo da minha consciência, espanto-me com o que hoje sou. Nesses momentos comparo-me a outros rapazes da minha idade e vejo que não tenho vivido nas salas como eles, não tenho dançado, passado noites em serenatas e borracheiras, não tenho passado o meu tempo nas casas de batota, nem na atmosfera enfermada dos cafés, etc. Mas quando nesses momentos me contemplo bem imparcialmente noto que a minha principal ocupação tem sido o estudo, não o estudo banal das aulas, mas o estudo sério dos problemas que em geral só estudam aqueles a quem os anos e o trabalho aturado fizeram amadurecer as faculdades de absorção, de assimilação. E apesar de ver que muita gente aquilata de banais os meus estudos e trabalhos, eu vejo que eles me deram atrevimento para no Congresso de Perigueux me apresentar ao lado das primeiras sumidades do mundo na minha especialidade, de afirmar diante deles as convicções e as conclusões a que me tem dirigido um trabalho aturado e sério”.
Numa outra carta a seus pais, Francisco já tinha desabafado:
“A arqueologia é o meu vício, o único e verdadeiro que eu tenho. Faz-me por de parte concursos de tiro e muitas outras coisas que me divertiriam mais, talvez, mas que me não serviriam tão proveitosamente como este ramo de estudos a que me dediquei há já cinco anos. Nos dois primeiros anos o entusiasmo durava apenas os quinze dias de férias. Agora que já decorei o alfabeto, sinto-me mais aferrado do que nunca… estou a reunir recolhas, a colecionar artefactos e a estudá-los e dentro de seis a oito anos conto publicar o resultado do meu trabalho de estudo de antiguidades dessa região, uma descrição geral dos factos que em eras distantes nela se passaram, dos povos que a habitaram, das evoluções dos seus costumes, das manifestações industriais, das suas crenças, etc.”.

15/04/2026
 

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