Joaquim Bispo
O MURO GLOBAL
(A jornalista Edite entrevista um graffiter, que pinta, num muro, uma Estátua da Liberdade e tem um discurso antiamericano.)
Continuação:
- A América pode cometer erros, mas é uma democracia...
- Infelizmente, a América, mesmo classificada de democracia, faz quase sempre parte do problema e poucas vezes da solução. Talvez para tentar esconder os indisfarçáveis níveis de racismo, de pobreza, de faltas de acesso à saúde e à educação, que por lá são tratadas como virtudes liberais. Não creio que chamar-lhe democracia traga algum consolo às famílias das vítimas dos morticínios provocados pelas administrações americanas. Num sistema político mundial que se regesse pela justiça e pelos apregoados direitos humanos, Bush teria comparecido perante um tribunal marcial, por crimes contra a Humanidade. Que eu saiba, nem sequer se pôs essa hipótese! Imunidades e impunidades de dirigentes parecem tiques próprios de regimes imperiais e tirânicos. Que apreço podem suscitar? - continuou, empolgado. - Para qualquer deserdado do Mundo, é indiferente se chamam democracia às eleições internas que uma superpotência faz e nas quais não pode votar. Mas o podem matar!
- Já vi que você tem a cartilha bem estudada…
- Infelizmente, não! Navego muito à vista - ripostou o graffiter, de cenho contristado. - Demasiadas vezes ainda acredito nos noticiários. Mas depois percebo que são eles que nos formatam o entendimento, de tal maneira que aceitamos as maiores desumanidades, só por virem defendidas pelos meios de comunicação. Acha ético que a comunicação social - que devia ser uma força formadora de mentes livres - continue a veicular os sofismas americanos, depois da mentira do Iraque? E do apoio objetivo ao genocídio de Gaza? Uma comunicação alinhada com um dos lados é uma agente ativa do encarceramento mundial.
- A sua atitude é muito negativa. Quer dizer que não acredita na Liberdade, nem nos meios de comunicação para a defender?
- É, é isso mesmo! - assegurou, convicto. - O Wikileaks fez mais pela denúncia dos crimes americanos do que a comunicação social mundial. Só depois das denúncias de Assange, de Snowden e de Manning é que se começaram a ouvir críticas ao presidente americano. Que, atualmente, é um psicótico que está a retirar os Estados Unidos de todos os acordos, a erguer muros em todas as relações internacionais e que usa o garrote económico como arma de submissão dos povos. Em termos de ferocidade, não é melhor do que os outros.
- Então, o que significa essa Estátua da Liberdade?
- Como ícone da América, representa aquilo em que ela se transformou. Será uma estátua da liberdade anafada, vingativa, estúpida, de coroa cor de laranja. O braço em tensão vai exibir a força musculada com que ela e os seus tentáculos se empenham a erguer muros por todo o mundo - da Palestina ao México e a Cuba - um planisfério que vai estender-se por trinta metros desta parede, supostamente continuando até ao infinito. Este mapa será cruzado em todas as direções por um labirinto de muros, sobre os quais ela vai aplicando intermináveis rolos de arame farpado. Espero que a mensagem seja suficientemente evidente.
- Muito bem; vou deixá-lo. Desejo-lhe boas inspirações!
Meia hora depois, numa sala de montagem, Edite dava indicações ao operador para a sequência dos planos da entrevista.
- João, tenho agora uma reunião. Mete o áudio da parte inicial, em que ele diz que o Bush matou civis e aquelas cenas do Iraque, mas sobre a imagem da parede ainda repleta de pichagens antigas. Podes meter também a parte do Trump. Não metas o Obama, nem a parte em que critica os noticiários. Acaba com um zoom out dele em cima do andaime, a pintar a imagem da Estátua da Liberdade. Não passes do minuto e meio!