Edição nº 1952 - 24 de junho de 2026

Gonçalo Salvado comemora 30 anos do primeiro livro

O poeta Gonçalo Salvado vai assinalar o 30.º aniversário da publicação do seu primeiro livro, intitulado Quando, com o lançamento de uma gravação em vídeo onde faz a leitura de um poema dessa obra inaugural do seu percurso poético.
Publicado originalmente em 1996 e ilustrado com desenhos de Ribeiro Farinha, o livro conta com um prefácio de Peter Stilwell, que colocou de antemão o autor na linha da grande tradição lírica e amorosa do Cântico dos Cânticos. Para Peter Stilwell “os poemas que melhor revelam o poder evocativo do autor, são os mais breves. Alguns curtíssimos, frases epigramáticas que no jogo feliz de imagens suscitam no leitor memórias em cascata. São versos que respiram a limpidez de um amor. Talvez por isso, há poemas que lembram o Cântico dos Cânticos. Acordam o sonho de um amor translúcido, aparentemente inatingível senão como memória trabalhada ou esperança evanescente”.
A história por trás do título remonta a 1995, em Lisboa, quando o editor José Manuel Capêlo (1946–2010) conheceu os originais do poeta. Entusiasmado com o material, José Manuel Capêlo convidou Gonçalo Salvado a publicar a obra na coleção O Lugar da Pirâmide, sob a chancela da Editora Átrio. Contudo, o autor acabou por declinar o convite devido a um impasse estético na produção da capa, uma vez que o poeta fazia questão de exibir um desenho de cariz amoroso que em sintonia com a atmosfera lírica do conteúdo, enquanto o editor recusava abrir uma exceção no design padronizado da coleção, que exigia rigorosamente a gravura de uma pirâmide em todos os volumes.
Perante o desentendimento gráfico, Gonçalo Salvado optou por lançar Quando noutra editora, mas fez questão de manter uma homenagem subtil ao projeto original, utilizando no miolo exatamente o mesmo tipo e tamanho de letra da coleção dirigida por José Manuel Capêlo. O autor assegura que recordará sempre José Manuel Capêlo como o seu verdadeiro primeiro editor, por ter sido o primeiro a validar a sua poesia e a decidir a sua publicação com entusiasmo.
Após o seu lançamento oficial, esta obra de estreia foi amplamente elogiada por algumas das figuras mais influentes e de maior relevo da cultura portuguesa. Nomes incontornáveis do panorama literário nacional, como Eugénio de Andrade, António Manuel Couto Viana, José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia, pronunciaram-se de forma muito positiva e incentivadora sobre a poesia do autor, consolidando o arranque desta caminhada que agora cumpre três décadas.
Sobre Quando Eugénio de Andrade realçou “que difícil um primeiro livro! Ainda por cima um livro de amor, de amor juvenil, quando o orvalho e o lume se fundem na mesma lágrima! Começas bem melhor do que eu comecei, espero que chegues mais longe. Porque tu vais crescer como poeta. E para isso só há um caminho: trabalhar”.
Pedro Mexia que escreveu um texto crítico sobre o livro referiu que “Gonçalo Salvado insere-se na tradição mais rica da poesia portuguesa que é também a mais exigente: a tradição do lirismo amoroso (…) numa fecunda linha de erotismo casto que tem o seu expoente máximo no Cântico dos Cânticos. (…) Este percurso ao mesmo tempo genuinamente vivencial e rigorosamente poético, vive do fulgor que se atinge pela brevidade, pela dispersão e que traduz, sem sentimentalismo meramente retórico, um total empenhamento amoroso. O segredo da voz de Gonçalo Salvado é a mistura de intensidade com descrição, que é também o que dá unidade a este livro. Na sua obra de estreia, Gonçalo Salvado aventura-se na mais temível temática, aquela que Rilke aconselhava que se evitasse, e triunfa. Podemos dizer que quem se estreia assim está preparado para escrever poesia, e não meramente versos. Assim o desejamos”.
O vídeo com a leitura de um dos poemas de Quando estreia dia 2 de julho e será transmitido via Internet, na rede social Facebook, a partir das 20 horas. A exibição decorrerá na página de partilha de poesia Quem Lê Sophia de Mello Breyner, coordenada por Lília Tavares e Carlos Campos, uma das plataformas com maior público em Portugal, contando com cerca de 130 mil seguidores. A data da estreia digital coincide precisamente com o dia e a hora do lançamento presencial em 1996, que ocorreu no Bairro Alto, em Lisboa, com sala cheia. Esse evento contou com a apresentação de Peter Stilwell e a presença de José Tolentino Mendonça, que leu, a convite do autor, excertos da sua tradução do Cântico dos Cânticos, à data ainda inédita.

24/06/2026
 

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