Elsa Ligeiro
AUTORES DE FEIRA
Há algo de feira de vaidades na atual Feira do Livro de Lisboa; não no bulício da multidão a percorrer o Parque Eduardo VII, visitando pavilhão a pavilhão, na procura de livros com descontos; ou a tentar encontrar títulos que desapareceram das Livrarias após três meses de alojamento livreiro, e já devolvidos às editoras para libertar espaço para outras novidades.
A vaidade que se nota é nos autores; já não é a editora a reclamar a atenção para os seus autores, não; agora são os autores que na sua rede social promovem a sua presença na Feira, uma e outra vez até à náusea, desde o mais anónimo à estrela de televisão que partilha o jornalismo com a vontade de contar histórias.
Os autores, no ano de 2026, posam com os leitores o seu estatuto, num método que descobri há mais de uma dezena de anos numa Feira do Livro de Coimbra.
Habituada às sessões de autógrafos coimbrãs serem uma espécie de travessia do deserto, com um oásis fraterno de um familiar ou amigo íntimo sem talento para se baldar à função; dou pelo fenómeno Pedro de quem nunca tinha ouvido falar.
Distração minha, claro, atulhada até ao pescoço de clássicos e obras completas de poetas, olhei com espanto uma fila enorme que esperava paciente a sua vez para entrar no Pavilhão de um conhecido distribuidor de livros de editoras que vendem. Assunto sério, portanto.
Como sabe quem me conhece: sou a curiosidade em pessoa; e lá vou de olhos bem abertos para conhecer o novo José Saramago das Letras Portuguesas.
Não o reconheci de nenhuma revista literária; tive mesmo que perguntar a alguém da fila como se chamava o autor; que só mais tarde, no meu pavilhão e na sempre fácil pesquisa no google percebi a dimensão da minha falha.
O homem tinha publicado vários livros e vendido centenas de milhares, seguramente nas livrarias que eu frequentava.
Sempre esteve ao meu lado, anónimo e escondido do meu olhar. E, obviamente, a culpa era só minha.
Reparei ao conhecê-lo que ele era um homem bem-apessoado (não pessoano, entenda-se): um sorriso feliz, um cumprimento afável e um espírito aberto, que cativaria qualquer sogra mais exigente.
E numa simpatia sem igual, pousava para a fotografia com cada uma das suas estimadas leitoras, em número igual aos autógrafos dos livros assinados.
Entendi então a razão da fila, e a lentidão da mesma: ele levantava-se da cadeira, dava um abraço e dois beijinhos a cada uma; uso o feminino porque os únicos dois homens que vi estavam de mão dada com a respetiva namorada ao lado. Ciumentos, imagino.
Saber pelo google que era um autor de sucesso não era suficiente para colmatar a minha ignorância; era preciso lê-lo; e com algum receio de me julgarem cusca, mergulhei nas páginas de um dos seus livros.
Li uma página quase inteira, passei à frente pensando ter tido azar; mas meia dúzia de linhas à frente lá percebi por onde andava o talento do Pedro; juntei os dados todos e conclui que, afinal, há mundos paralelos e coexistem nas livrarias.
Como conheço o pecado da inveja, passei umas boas horas a perguntar se o conheciam “já ouvimos falar”, mas “já leram algum livro’?”, não; diziam-me com um sorriso próximo da gargalhada.
A verdade completa soube-a depois; o homem organizava oficinas de escrita criativa; e aquelas admiradoras todas não resistiam ao elogio fácil do autor já publicado em livro; e elas, enquanto alunas das oficinas, vertiam em poemas ou escrita criativa as suas experiências amorosas (provavelmente platónicas) ou existenciais.
O homem, afinal, é o que chama em bom português um chico-esperto; e por muito talento que desenvolva, nunca o pode editar, pois vive atulhado na admiração das mulheres que atende via rede social e que lhe mostram sem pudor (na verdade, como ele escreve, elas também lá chegam sem grandes problemas) o seu escondido talento, ao qual basta um pequeno empurrãozinho do autor certificado pelas vendas para as transformar também em autoras de feira.
Deduzo que algumas das suas primeiras admiradoras já acabaram o curso universitário e agora dão aulas; e o Pedro, já de barba grisalha, lá circula em conferências (só para mulheres) e em cursos de escrita criativa por Bibliotecas Escolares, pois, hoje, as professoras bibliotecárias já chegam à Escola com um livro editado por empresas especializadas em transformar os seus sonhos confessados ao Pedro, em livros.
O que lhes permite sessões de autógrafos em Bibliotecas e Feiras do Livro; e, com a experiência acumulada, ensinam aos seus alunos que publicar um livro não tem nada de mal, só bem, e não custa (quase) nada.
A não ser ao erário público que paga estes jogos florais ao preço de uma boa educação literária.