Edição nº 1962 - 9 de setembro de 2026

José Dias Pires
O QUE VALEM AS PALAVRAS

Por vezes as palavras, especialmente as de amor aparente, são apenas a fronteira de uma terra prometida.
E fica-se eternamente à espera que o deixem de ser.
A boca que pronuncia o amor fala, frequentemente, uma língua que não domina. Movidos pela urgência do afeto ou pelo medo da solidão, escudamo-nos em verbos grandiosos e em promessas esculpidas à pressa no ar, acreditando inocentemente que a simples junção de certas sílabas tem o poder mágico de fundar, em utopia, uma nova realidade.
No silêncio que se segue ao estrondo do quotidiano, damo-nos conta de como a nossa arquitetura emocional é frágil e procuramos desesperadamente a presença do outro, não tanto por generosidade, mas pela urgência quase biológica de nos sabermos pertença de alguém.
O medo de sermos esquecidos, de nos tornarmos meras sombras num mundo sobrepovoado de ausências, empurra-nos para uma linguagem hiperbólica. É nesse território de carência que nos escudamos em verbos grandiosos — amar, prometer, jurar, eternizar —, palavras pesadas que lançamos sobre o abismo da nossa própria insegurança como se fossem pontes de betão, quando, na verdade, não passam de pontões de papel.
As nossas juras de amor não são, na maior parte das vezes, reflexões amadurecidas no tempo: são promessas esculpidas à pressa no ar.
Têm a urgência do fogo-de-artifício: brilham intensamente num segundo, rasgam a escuridão da nossa solidão, mas extinguem-se logo a seguir, deixando apenas o cheiro a pólvora queimada e o mesmo céu escuro de antes.
Há uma pressa trágica na forma como nos vinculamos aos outros, aos espaços e aos tempos. Esculpimos palavras sem cuidar da matéria-prima, esquecendo que o ar é um suporte demasiado volátil para aguentar o peso do futuro.
Ainda assim, insistimos no erro com uma pureza quase infantil. Agimos acreditando inocentemente que a simples junção de certas sílabas tem o poder mágico de fundar uma nova realidade.
Comportamo-nos como alquimistas da linguagem, convictos de que a palavra “sempre” tem a capacidade de paralisar o tempo, ou de que a palavra “nunca” pode realmente apagar o passado. Esquecemo-nos de que os vocábulos, por si só, são apenas conchas vazias se não forem preenchidos com o cimento das ações diárias. Acreditamos no feitiço do verbo para não termos de encarar a dura verdade: a de que a realidade não se funda com magia, mas sim com a paciência, o silêncio e o trabalho invisível de construir, dia após dia, o afeto que tanto tememos perder.
Lançamos palavras ao vento como quem lança sementes à rocha, esperando que delas brote um jardim. No entanto, o tempo encarrega-se de demonstrar que, por vezes, essas palavras de amor aparente são apenas a fronteira de uma terra prometida.
Nada mais do que isso: longe de serem pontes que unem, essas declarações transformam-se numa linha de demarcação que separa. Funcionam como a alfândega do sentimento (a alfândega do coração): uma barreira rígida, burocrática e intransitável de uma pátria afetiva que se avista ao longe, mas onde nunca se chega a tocar com os pés.
Estendida diante de nós, na linha do horizonte, essa terra exibe o brilho dourado daquilo que poderia ser: o cuidado absoluto, a entrega sem reservas, o porto seguro em dias de tempestade.
Contudo, as palavras que deveriam inaugurar esse território e dar-nos as boas-vindas funcionam, afinal, como um muro invisível de vidro. São paradoxais. Dizem “amo” não para abrir a porta do peito, mas para gerir a distância de segurança; dizem “estou aqui” apenas para delimitar o território exato até onde estão dispostas a ir. O signo esvazia-se do seu peso intrínseco, a promessa perde o seu oxigénio e o ser humano transforma-se num habitante do limiar, condenado a uma espera perpétua.
E fica-se assim: eternamente à espera que as palavras deixem de ser apenas fronteiras. Espera-se que ganhem carne, que ganhem corpo, que se convertam em passos reais em direção ao outro. Vive-se no cais, a olhar para um mar de intenções que nunca chega a naufragar nem a atracar.
Essa eterna expectativa desgasta a alma, pois prende-nos ao potencial daquilo que foi dito, e não à crueza daquilo que realmente é.
Esta eterna insatisfação, este olhar fixo no que está além do muro, liga-se umbilicalmente a uma falha trágica da condição humana: a nossa incapacidade de valorizar o solo que pisamos. É por isso que valorizamos mais o que nos é alheio. Olhamos para a terra prometida do vizinho e imaginamo-la sempre mais fértil, mais verde, mais autêntica. É o velho e sábio princípio popular da “galinha da vizinha”, que assume sempre contornos de pavão aos nossos olhos famintos.
Desprezamos o afeto seguro que já possuímos, a palavra dita sem floreados mas com verdade, para perseguir o brilho distante de uma miragem. Desejamos o que está do outro lado da fronteira simplesmente porque está do outro lado. No fim, ficamos encurralados entre dois vazios: a palavra vazia que nos deram e o desejo vazio pelo que pertence a outrem.
E a fronteira? Permanece intacta, vigiada pelo nosso orgulho e alimentada pelas nossas eternas ilusões de pertencer onde não pertencemos e de ser o que nunca seremos.

09/09/2026
 

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