Antonieta Garcia
TAMBÉM ISTO É AGOSTO!
No Fundão, em segunda-feira de agosto, vivem-se bons momentos. Emigrantes marcam presença na terra mãe, passeiam com a saudade… Não há frutas nem legumes mais saborosos; as ruas da santa terrinha conhecem-se, o pão não há outro como ele, os queijos são feitos com mãos de fada… Muitas vezes petiscam um bocadinho de tudo, até que uma lagrimita se solta, antecipa-se o bem-estar à espera que venha a mulher da fava rica.
Depois, à tardinha, comentam as compras, disputam qualidades e fruem estima.
De manhã, cozinham o feijão verde (do nosso), o mais gostoso! - cujo preço varia, mas com dias a custar 4 e 5 euros. Imposto de agosto, está claro. No mês anterior, custava metade, no máximo. Mas ninguém é obrigado a comprar e o que chega de Marrocos e de estufas cumpre o papel, se não formos rigorosos na arte dos sabores. E tudo o que parece bom, os produtos agrícolas e outros apetitosos, com os emigrantes a equilibrar as bolsas de quem vende … Nem ar e vento sobram.
Como resistir, porém, a beringelas com uma cor e brilho sublimes, divinos, a cenouras com um aroma memorável, a espinafres de veludo, cherovias, botelhas, couves, peras, melancias…?
Compra-se, claro, que o tempo de duração é curto e há sabores que não devem adiar-se e perder-se.
As histórias mudam, é claro! Por exemplo, numa banca, maçãs Bravo de Esmolfe, perfumadas, lustrosas, bojudas, alinhavam-se nas caixas. Carnudas e luzidias fossem elas de cor vermelha e perceber-se-ia direitinho, a história bíblica e a desobediência feminina. Eva oferecia uma maçã daquelas a Adão e pronto, repetia-se a tão expressiva e badalada narrativa que a maçã iniciou. Mais do que perfeita, a maçã do Génesis tem feito correr rios de tinta. Cheia de vitaminas incompreensíveis vendeu a alma à serpente, essa matrona venenosa ensaiada pelo diabo. E tudo podia ter sido diferente.
Lembrei, por exemplo, Ziraldo, escritor brasileiro, que recontou a história e inventou uma sequência diferente. Quando Adão se preparava para morder a tentadora maçã, uma lagarta ali, bem instalada, temeu pela vida. Desesperada, tenta a sorte, põe a cabeça fora de casa, e grita:
- Tem gente!
Estremece Adão. Ora, se a maçã da narrativa do pecado incluísse esta lagarta… o caleidoscópio de enredos da humanidade teria sido diferente. Percebi-o claramente na praça do Fundão.
Porém, o ramalhete do feijão côvado, da couve Pão de Açúcar, e da Penca, frescas, edénicas, também, são garantia da presença num Céu. E as couves?
Ouve-se:
- E já estão a prepará-las para o Natal? Há lá alguma que chegue à Couve Portuguesa! Estava a esquecer-me! A Couve Bacalam é uma delícia.
- Ah! Pois para tudo correr como se deve, as couves têm de ver a lua de agosto; os pés de couve são colocados na terra…
Na Praça, fadada de graça, há uma segunda-feira de agosto que oferece a lua cheia para ser feliz…. Afinal, esta geração que, enquanto planta ou colhe maçãs, também, se preocupa com energias renováveis, produtos biológicos, ecologia… não descurando que ainda há gente capaz de se enternecer com uma lagarta, coitadinha, que está adormecida…
No entanto, num tempo, em que no Interior, andam por aí à solta vendilhões e vendidos incuráveis que têm o coração em forma de intrigantes sistemas de inequações... os saberes e sabores da Beira continuam a presentear-nos na Praça do Fundão.