João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
FICAVA DE MAL COMIGO MESMO, se não trouxesse a este espaço semanal aquele que é o principal, o absoluto, motivo de discussão em todos os espaços de discussão, sejam eles digitais, canais de televisão e redes sociais, ou analógicos, bancos de jardim ou mesas dos cafés. Afinal, num país de comentadores de bancada, como poderia eu ficar sem dar também os meus bitaites.
Por estes dias, Portugal tem vivido de forma muito acalorada um psicodrama, do qual não sei se valerá a pena fazer o plot da história, de tão sabido que ele já é. Mas aqui fica: Ronaldo, que se considera igual ou superior a Eusébio, Maradona ou Pelé, ficou toda a segunda parte de uma partida a aquecer, sem entrar em jogo. Coisa nunca vista em futebol, como sabem. Amuado, ofendido, humilhado, mandou vir o seu jato privado e abandonou estágio e a equipa que capitaneava. O chato é que em campo ninguém sentiu a falta dele e Portugal até ganhou. E mandou a um dos seus assessores escrever um comunicado em oito pontos, para pôr tudo em pratos limpos. A obra foi logo nomeada para prémio literário e de leitura obrigatória nas escolas. Uma obra importante, porque transparente. Ficámos a saber que ele teve uma palavra a dizer na escolha do selecionador, que ele, ou alguém por ele, escreve o que o selecionador tem de dizer aos jornalistas, que lhe foi prometido que jogaria, nem que fosse ao pé coxinho. E os portugueses ficaram a saber que afinal aquilo não era uma equipa no verdadeiro sentido da palavra. Era um jogador, garantia dos patrocínios de que se alimenta a Federação, mais dez. E também já se percebe porque é que no Mundial, jogou sempre os 90 minutos de todos os jogos. Porque é o dono da bola e detesta ser substituído...
Um psicodrama em vários capítulos de que, já se adivinha, o último será o regresso à seleção, a entrar para apoteose final, de mãos dadas com Jesus, que quem tem dinheiro e influência nas redes não tem idade.
Mas temos de ver o lado positivo da coisa. Este drama pungente fez passar despercebida na Assembleia a aprovação da Lei das Rendas pelo PSD e Chega. E isto sim, muitas vozes alertam para os verdadeiros dramas que poderão resultar da aplicação da lei na vida de muitos inquilinos.
Ou, com o espaço televisivo ocupado com a discussão ronaldiana, não houve espaço para discutir e refletir sobre as derivas da política mundial, que no Mundo global nos afetam também a todos nós.
Mas este assunto está esgotado e, na voracidade das notícias, já foi substituído pelo regresso do D. Sebastião da política portuguesa.