José Dias Pires
ANDAM DISFARÇADOS DE CORDEIROS
A essência humana sempre se deixou fascinar pelas máscaras, pelo disfarce. Na penumbra das nossas certezas sociais, os predadores mais implacáveis aprenderam que a força bruta gera resistência, enquanto a mansidão simulada abre todas as portas.
Foi por isso que os lobos contemporâneos abandonaram as florestas densas e os invernos rigorosos e já não necessitam da noite escura para caçar. Compreenderam que o segredo da sobrevivência e do domínio reside na capacidade de mimetizar a inocência da presa.
Assim, vestem-se com as peles mais finas, curtidas e cortadas nos grandes centros de poder, e cobrem-se com casacões elegantes que ocultam a musculatura tensa da fera faminta. Os lobos de que falo, frequentaram as melhores escolas, aprenderam a etiqueta dos salões e, em vez do uivo, dominam a arte da retórica refinada.
Sabem exatamente como modular a voz para que o uivo ancestral soe como uma melodia reconfortante, capaz de acalmar as massas e neutralizar qualquer instinto de defesa individual ou coletiva.
O verdadeiro perigo destes predadores de salão reside na forma como mediaticamente se transformam: perceberam que o explícito acicatar do medo afasta o público, enquanto a imagem de pureza atrai a devoção. As suas faces transmitem uma serenidade angelical que desarma a desconfiança, permitindo-lhes ocupar lugares de destaque nos ecrãs de televisão e nas páginas dos jornais.
Através dos meios de comunicação, transformam o veneno em virtude e o ódio em necessidade ideológica.
Onde antigamente se temia a violência física, hoje consome-se a manipulação psicológica.
A aliança que celebram nas sombras não é com a natureza, mas sim com os interesses, com o rancor acumulado e com o controlo social. Nos seus lábios, o balido do cordeiro torna-se uma arma sofisticada de propaganda, concebida para adormecer a vigilância das comunidades e legitimar a exploração dos outros.
Os lobos de que falo, já não se deslocam descalços em alcateias selvagens, mas sim em viaturas luxuosas que simbolizam o sucesso e o estatuto, silenciosas e, de preferência elétricas. A sua estratégia não consiste em afugentar quem conduz os rebanhos populares, mas sim em cooptar e devorar os próprios pastores — os líderes, os que pensam e os que defendem os direitos comuns. É sob a capa da retórica moralista, que se esconde a hipocrisia destes ímpios pregadores, cujas consciências (corruptas) cospem o desprezo pelos valores que publicamente afirmam defender.
O seu grande objetivo final é o sequestro definitivo da esperança coletiva e a instalação do medo e da desconfiança permanente, através da renovação dos velhos processos de opressão e exclusão, para perpetuar privilégios históricos sob o manto de uma falsa estabilidade ou de uma paz imposta pela força do dinheiro.
Perante esta sofisticada ameaça, a ingenuidade tornar-se-á um erro fatal.
A narrativa repete-se com novas roupagens, mas a estrutura da fábula permanece idêntica.
Se desejamos preservar a memória coletiva, a dignidade e a liberdade de todos e cada um de nós, não podemos continuar a agir com a passividade deslumbrada do Capuchinho Vermelho no bosque da ignorância.
É imperativo desenvolver uma lucidez crítica que rasgue as peles de cordeiro e exponha a verdadeira natureza dos discursos adocicados dos lobos.
A resistência contra os novos lobos não se faz com a submissão ao espetáculo mediático, mas sim com a coragem de olhar para lá das aparências e recusar o papel que nos oferecem de vítimas predeterminadas e submissas num enredo escrito pelos próprios predadores.