Edição nº 1968 - 21 de outubro de 2026

Joaquim Bispo
CRETINA COMÉDIA

Debald Dump, rodeado pelo seu staff na Sala Oval, acabara de ouvir uma declaração do seu rival chinês, mas não percebera o que é que ele tinha querido dizer com “divina comédia”.
- Achas que ele disse que foi divina a minha destruição do Irão? - perguntou a DJ.
- Hum, acho que não. Se ele não tivesse falado em “comédia”… Ó Rosso, o que é que achas?
- Divina Comédia é como ficou conhecida uma epopeia de Dante Alighieri, um florentino do século XIV - adiantou-se o especialista de cultura clássica.
- Não sei como é que aquele tipo tem tempo para antiguidades. Ó Hanson explica-me cá essa tal epopeia divina, que isso interessa-me - arrebitou-se Dump.
Nos vinte minutos seguintes, o assessor fez uma resenha apressada da obra maior de Dante. Descreveu resumidamente a viagem imaginária de Dante aos mundos sobrenaturais do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, acompanhado, aos dois primeiros, pelo aclamado poeta romano Virgílio, e por Beatriz, um amor de adolescência, ao Paraíso. Debald Dump manteve-se muito atento à explicação e ficou ainda uns minutos pensativo.
Nessa noite, sonhou que, perdido, vagueava por um deserto escuro e frio, talvez a Gronelândia. Para piorar as coisas era perseguido por um dragão, um urso e um burro, qual deles o mais ameaçador. Sem encontrar vivalma, nem vislumbrar saída para aquela situação, correu em desespero e, quando ofegante, estava prestes a desistir, apareceu-lhe o falecido amigo Epstein, para o guiar numa viagem de redenção através do mundo dos mortos. Vinha enviado por uma adolescente traficada por este e se suicidara em 2025. A rapariga queria ajudar Dump, porque percebera, quando o conheceu, que tinha ficado embeiçado por ela.
Guiado por Epstein, Dump visitou primeiro o Limbo, onde encontrou muitas caras conhecidas da História, alguns até com fama de virtuosos, só com o senão de não serem norte-americanos. Achou que havia um presidente sul-americano, outro africano e uma presidente da Islândia, com um nome esquisito, mas era irrelevante - nomes não era com ele.
Depois, desceram pelos nove círculos do Inferno em forma de funil, que se tornam mais estreitos e profundos à medida que as maldades se tornam mais graves. Epstein mostrou-lhe demoradamente o círculo do tráfico humano, o que conhece melhor, onde Dump reencontrou muitos amigos de outros tempos. No círculo da ganância, o reencontro com um banqueiro que morreu na prisão também o confortou. No círculo da ferocidade viu debaterem-se ex-poderosos, alguns, antigos presidentes e secretários americanos da Defesa. Ali, uma cadeira esperava por Bush e - horror -, uma outra estava marcada Debald Dump.
- Como pode ser isto? - sobressaltou-se Dump. - Eu que acabei com oito guerras; eu que devia ter ganho o Nobel da Paz!
- Se calhar, não te aplicaste no marketing - mentiu Epstein, solidário, não querendo sobressaltá-lo.
- Eles que pensem bem, que eu posso obliterá-los…
Sempre a descer, chegaram ao círculo mais profundo do Inferno, o da desumanização. Ali, o próprio Lúcifer rodeado de chamas, rói perenemente os despojos dos maiores genocidas de todos os tempos. Dump reconheceu alguns, como Hitler e Ben Gurion, presos pelos artelhos em ganchos, numa fileira a perder de vista. Não escapou a Dump o pormenor de um gancho vazio, com o nome de Netanyahu. Lúcifer, vai-lhes arrancando membros ou nacos de corpo, que rói meticulosamente, até não restar mais que ossos, que atira a um enorme monstro carnívoro, que completa a redução ao elementar. Os excrementos seguem depois para a máquina da perfídia, que os recompõe, eternamente.
Continua

21/10/2026
 

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