João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
NA SEXTA-FEIRA, dia 16, com um grupo de amigos, comemorei da melhor maneira o Dia Mundial da Alimentação, participando na 16ª Oficina BioAromas & BioAromas LIIS, subordinada ao tema Inovar Hoje para Nutrir Amanhã. Tenho um carinho especial pelo projeto BioAromas LIIS – Laboratório de Integração e Inovação Social, uma resposta social, inovadora e integradora de jovens/adultos com deficiência ligeira a moderada, sendo uma alternativa à tradicional institucionalização. Enche-nos a alma ver a felicidade e o orgulho que, enquadrados por uma boa equipa de voluntários com larga experiência pedagógica, aqueles jovens e menos jovens manifestam na forma como colaboram na execução das tarefas. Seja na participação das tarefas de confeção e serviço de refeições (servidas todas as terças e quintas, com reserva obrigatória), seja no cultivo de ervas aromáticas e medicinais com que elaboram os muitos e variados chás que estão à venda, com a marca própria É Capaz, na loja do Centro de Ciência Viva de Proença-a-Nova.
Na visita guiada à horta e às culturas de plantas de chá e medicinais, dizia a professora Fernanda Delgado Sousa (ESA, UPCB), entusiasta colaboradora desde a primeira hora, que do chá que se comercializa nas lojas ou grandes superfícies, sabemos quem o embala, e nada sabemos sobre a sua origem e percurso que fez até à nossa mesa, mas que o chá cultivado pelos meninos envolvidos no projeto, do cultivo, secagem até ao embalamento é garantidamente biológico e de qualidade, produzido segundo todas as regras éticas e higiénicas. Este chá, que em forma de água aromatizada ou na sua famosa chágria (alternativa à sangria), acompanha sempre as refeições ali servidas.
O chef Rui Sousa, também nutricionista e professor (UPLeiria), natural da aldeia de Maljoga, vai no 16º ano de colaboração muito ativa, do que que considera já não como um projeto, antes uma certeza. Ele foi o responsável pela confeção e apresentação da refeição, uma sessão de cozinha ao vivo onde mostrou algumas das possibilidades culinárias da plantas aromáticas e condimentares, com utilização de produtos endógenos numa perspetiva sobre o papel da alimentação na construção de um futuro mais saudável e sustentável.
A alimentação é objeto de estudo em várias ciências, nomeadamente na Antropologia e Etnografia (Jaime Lopes Dias, na Etnografia da Beira dedica-lhe vários capítulos). A Antropologia aborda o ato de comer para além do plano estritamente biológico e nutricional: alimentar-se é um ato social, cultural, político e simbólico. Como escreveu o antropólogo Claude Lévi-Strauss, os alimentos não servem apenas para comer, mas também são “bons para pensar”. Lévi-Strauss demonstra como a transformação dos alimentos simboliza a transição da Natureza para a Cultura. A comida constrói fronteiras étnicas, de classe e regionais (“somos o que comemos”). A gastronomia serve frequentemente de marcador de identidade nacional ou regional. E é também isto que nos leva a festejar, preferencialmente em grupo, o Dia Mundial da Alimentação. Sem esquecer que, infelizmente, a alimentação para muitos milhares de portugueses, já é mais que um direito, é um privilégio para quem a tem na mesa da suas casa, comprada com o pouco que sobra da renda que lhes consome a maior fatia do seu salário...