Edição nº 1969 - 28 de outubro de 2026

Joaquim Bispo
CRETINA COMÉDIA

(Anteriormente: Debald Dump visita os mundos sobrenaturais, guiado por um amigo.)
Continuação: Dump ficou convencido de que todos aqueles condenados tinham sido indivíduos de grande carisma. Sentiu até uma ponta de inveja, não fosse aquela fase de serem roídos.
Um pouco nauseados, os viajantes arrastaram-se demoradamente até à superfície. Começaram então a escalar uma montanha escarpada, com vários patamares a que correspondiam pecados em fase de resolução. Era o Purgatório. Em cada patamar, residiam pecadores que, embora tendo pecado com afinco, por jactância, ciúme, mândria, mesquinhez, alienação o fizeram por ignorância, ingenuidade ou inconsciência. Todos experimentavam penas e sofrimentos dolorosos, mas mantinham esperança em ultrapassar o estado lamentável que ali os levara, o que lhes concedia boa disposição e até alegria.
Dump ficou muito bem impressionado com o local e pretendeu informar-se sobre projetos urbanísticos para a zona, porque, na verdade, tinha paisagens de tirar o fôlego e seria, claramente, um bom investimento criar ali resorts de luxo.
- Depois vês isso - apressou-o Epstein. - Agora tens de visitar o Paraíso, que tem horário condicionado. Mas não posso acompanhar-te. Tenho embargo ativo para lugares decentes. Deixo-te com a tua idolatrada ninfeta.
Depois das naturais saudações, a antiga menina de Epstein guiou Dump pelas nove esferas celestes do Paraíso. À medida que subiam no firmamento, a menina mostrava a Dump inúmeros seres em pura harmonia celestial. Dump não conhecia a maior parte deles, mas reconheceu um militante anti-apartheid, outro pela alfabetização, e meia dúzia de artistas. O ambiente era de uma tal paz, que transmitia um contentamento muito sereno e aprazível. Dump estava encantado. Puxou do seu permanente livro de determinações, escreveu uma declaração de que, a partir daquele momento, o Paraíso passava a chamar-se América e assinou o nome na sua habitual letra longilínea de tamanho grado. Não tinha dúvida de que era uma excelente decisão.
A certo momento, foram rodeados por muitas dezenas de meninas, todas da mesma idade, que cantando, fizeram uma dança de roda, larga e compacta, em volta deles.
- Quem são estas crianças? - quis saber Dump.
- São as 160 meninas iranianas assassinadas por um recente bombardeamento americano a uma escola no sul do Irão.
Dump sentiu um arrepio, mas logo a seguir questionou-a:
- Mas, porque é que me recebem tão bem? Não sabem que fui eu o principal responsável?
- É assim o estado de harmonia final: uma completa empatia entre seres. É como se já percebêssemos que cada ser malévolo não passa de um ente em desenvolvimento incompleto, portanto, não completamente consciente, nem responsável pelas atrocidades que pratica - informou a jovem.
Como se esta experiência representasse a revelação transformadora que justificava a viagem, Dump sentiu uma onda claustrofóbica a percorrê-lo. Queria sair dali. Esperneou, tentando voltar à realidade, mas, por mais que se debatesse e tentasse gritar, nenhum som saía da sua boca e, aos poucos, afundava-se num espasmo apoplético, a caminho de uma paragem cardiorrespiratória. O sentimento final era de uma grande angústia. Arrasava-o deixar a América ainda tão necessitada dele para crescer.
O velório decorreu no recém-construído salão de baile. O féretro, com o defunto exposto, impecável num fato azul e gravata vermelha até aos pés, e tratado por cabeleireiros e maquilhadores profissionais, foi visitado por muitos chefes de estado sorridentes. O evento foi o mais noticiado desse ano e provocou a maior onda registada de suspiros de alívio.

28/10/2026
 

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