Edição nº 1969 - 28 de outubro de 2026

João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...

FAZ AGORA 52 ANOS, em disco publicado em outubro de 1974, cantava Sérgio Godinho Só há liberdade a sério quando houver: A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação (Liberdade). O hino de uma geração que continua muito atual. Lembro que se estava a sair de uma ditadura, a viver há 13 anos uma guerra colonial, um país que era dos mais pobres da Europa, onde a fome não era ficção (os tempos de uma sardinha para dois ou três), quando os bairros da lata faziam parte do cenário das grandes cidades, incapazes de absorver o êxodo rural especialmente a partir dos anos 60, quando na generalidade do país a situação do saneamento básico em Portugal era extremamente precária tanto nas zonas rurais como nos grandes centros urbanos com cerca de 40 por cento a 60 por cento da população a não ter qualquer ligação à rede de esgotos. Mais de metade da população não tinha acesso a água canalizada no interior das suas casas, dependendo de chafarizes públicos, poços ou fontanários. Cerca de um terço dos Portugueses vivia em casas sem instalações sanitárias básicas (como casa de banho ou banheira), incluindo muitas habitações no centro das cidades de Lisboa e do Porto.
Há 50 anos a ausência de saneamento tinha consequências severas nos indicadores de saúde do País. Na mortalidade infantil, Portugal registava a taxa mais grave da OCDE, em grande parte devido a infeções gastrointestinais e falta de condições de higiene à nascença e a esperança de vida andava pelos 68 anos, fortemente penalizada pelas condições de salubridade pública do País. E sem esquecer a educação, com uma taxa de analfabetismo de 25,7 por cento e apenas 1,6 por cento a frequentar o Ensino Superior...
Foram os cinquenta anos da democracia, com a pertença à Comunidade Europeia, que criou um cenário bem diferente. Fim dos bairros da lata, acesso a habitação condigna e dotada de todas as condições de salubridade, criação do SNS e a educação para todos. Já houve tempo em que a classe média podia viver em casa própria ou alugada nos centros das cidades, a que davam uma vida própria. A gentrificação, particularmente das grandes cidades, motivada em parte pelos grandes investidores imobiliários estrangeiros, conduziu a custos da habitação a preços inacessíveis ao comum dos Portugueses. E o absurdo do Governo Português ter definido 2.350 euros como o teto máximo do conceito oficial de “renda moderada”.
À geração mais escolarizada de sempre, prometíamos uma vida melhor do que a vivida pelos pais e avós. Promessa não cumprida. E agora lutam por uma vida condigna e pelo direito à habitação. Protesto pacífico em forma de acampada e o ministro da Administração Interna, enfraquecido pelos muitos problemas em que está envolvido, agora enche o peito de autoridade e responde com a polícia a avançar contra os manifestantes, usando uma força que muitos consideram desproporcional. Enquanto o Primeiro-Ministro mantém um silêncio ensurdecedor. Temos de encontrar resposta para as justas reivindicações antes que a luta se radicalize.

28/10/2026
 

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