Elsa Ligeiro
BCA - UM PROJETO SINGULAR
Uma crónica é uma opinião livre. E também a manifestação do pensamento de quem a escreve.
Por isso, peço licença para vos falar de um projeto pessoal, talvez o mais relevante da minha vida; que inicio com toda a dedicação e entusiasmo.
Será provavelmente o último, mas sinto-o como o primeiro ou pelo menos o que resume mais de cinquenta anos de trabalho árduo, remando invariavelmente contra a corrente de um país ainda culturalmente desigual no seu Interior
Refiro-me à Biblioteca Comunitária que após cinco anos de ensaio e pensamento, abre, ainda tímida, no “Espaço Em Nome da Beira”, no Mercado de Alcains.
Para quem já não se lembra (ou nasceu depois), criei, realizando o grande sonho da minha adolescência, uma Livraria em Alcains.
Assim que me foi possível, na verdade quando lancei, a partir de 2006, uma coleção de livros de baixo custo com o melhor da Literatura em Língua Portuguesa (mas não só), para adolescentes e adultos; livros que se podiam levar facilmente no bolso ou na pasta, e realizar, em menos de meia hora, uma Leitura de qualidade; enquanto se esperava por um amigo, por uma consulta médica, ou pelo atendimento numa repartição pública.
A coleção chama-se “Literatura Portátil”, na qual editei 56 livrinhos, de autores como Pessoa e Mário de Sá-Carneiro; Eça de Queirós e Machado de Assis; Raul Brandão e Florbela Espanca, entre muitos outros, transformando a coleção num sucesso comercial, o que me permitiu verba para investir numa Livraria em Alcains; onde, com a Cláudia Baltazar, organizámos Tertúlias (sobre Teatro e outros assuntos); Leituras, apresentação de Livros, mini-concertos de guitarra com Flávio Damião e Jorge Pires, exposições de fotografias, de Diamantino Gonçalves e de alunos da Escola Secundária de Alcains, com coordenação do seu professor, Carlos Matos…
Enfim, uma Livraria com uma dinâmica que muitas das que existiam nas grandes cidades não tinham.
Foi, como toda a gente me avisou logo no início, um fiasco económico (nada a que não estivesse habituada).
Mas nunca foi o sucesso económico a minha motivação. O dinheiro usa-se para criar projetos e partilhar alegrias e paixões com quem nos rodeia; e investe-se naquilo em que se acredita e é necessário.
Toda esta conversa para explicar que a Biblioteca Comunitária de Alcains não pretende tirar o trabalho ou o protagonismo a ninguém, mas ser apenas um reforço de cidadania participativa e cultural para a Vila de Alcains.
Que tentará com os recursos próprios que dispõe e, com os leitores e cidadãs e cidadãos de boa vontade, trabalhar para um “Bem Comum” de valorização da Vila de Alcains.
Criando novas vias de atividades culturais, claro, alternativas às que regem atualmente as associações, sempre tuteladas pelo município ou freguesia, que não podem fugir à fotografia tutelar da entrega do protocolo com o respetivo cheque.
Não me interpretem mal, cada um deve estar na comunidade como bem entende; mas a liberdade e a independência também são, só por si, uma manifestação de cultura e de cidadania participativa elevada.
Na Biblioteca Comunitária de Alcains o espírito é o de acolhimento; e o tratamento será igual, tanto para o presidente de qualquer instituição pública como para o jovem que quer ajuda para um trabalho escolar ou universitário, passando pelo imigrante acabado de chegar a Alcains com dificuldade em se expressar em português.
Não queremos ser um projeto nem de solidariedade social nem de exercício de poder cultural, apenas um lugar com livros, um entreposto de troca entre autores e leitores, onde o comércio não seja o fator determinante à hora de levar para casa um bom livro.
Os livros que a BCA dispõe para empréstimo foram selecionados pelo seu valor literário, mas também humano.
Acolhemos autores que nasceram em Alcains ou deram aulas na Vila, como a professora Albertina Morão Correia, de quem a BCA possui um livro de poemas, “Jardim da Memória” doado pela sua filha, que vive em Coimbra; mas também o testemunho em livro da infelizmente já falecida Ana Maria Rafael Beirão, alcainense que nos deixou o livro “Iguais no Trilho”.
O espaço será comunitário antes de ser Biblioteca, e lugar de partilha de conhecimento que, acreditamos, não está todo nos livros.
A Biblioteca Comunitária de Alcains destacará sempre os alcainenses espalhados pelo mundo, de Adelaide, na Austrália, até aos que saíram para Coimbra ou Lisboa, para estudarem e por lá ficaram a trabalhar,
Tentará organizar memórias comunitárias e abrir horizontes aos jovens que sonham com as artes, permitindo-lhes crescer em áreas artísticas, que, como sabemos, têm dificuldades acrescidas em Portugal e mais ainda no Interior.
A BCA nasce para valorizar o presente e apostar no futuro de uma Vila que ainda tem um longo caminho a percorrer para se afirmar, cultural e socialmente, como uma das maiores freguesias do distrito de Castelo Branco.