Edição nº 1970 - 4 de novembro de 2026

João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...

ALGUMAS REFLEXÕES de um azeitoneiro de fresca data. Começo por anunciar que, pelo menos que me lembre, nunca comprei um litro de azeite que fosse num espaço comercial. Sortudo, dirão. E eu confirmo, também por ter um pai que plantou, cuidou e colheu até não ter forças o fruto das oliveiras da família. Mas os anos pesam e a partir de certa altura, quem escreve estas linhas teve de passar a estar mais presente nestas tarefas tão distintas das que ocuparam o meu dia a dia durante dezenas de anos. E tomei gosto pela tarefa. Mas acontece que o rancho é muito pequeno e limitado na competência. Por isso, apesar de haver certo prazer num trabalho que enche de vozes os campos da aldeia, que cada ano traz da cidade muitos dos tiveram aqui a sua infância, apesar deste prazer, o cansaço físico traz consigo algum natural enfastiamento. Na nossa região, o tipo de olival e a orografia não permitem, a não ser na campina de Idanha, a mecanização como a que vemos nos campos alentejanos. Por isso, mesmo a vulgarização do varejador elétrico não dispensa o subir e descer escadas, e encavalitar-se numa oliveira que era fácil para qualquer puto, é agora uma aventura que faz não pouco azeitoneiro cair de maduro e terminar numa cama de hospital.
Mas se pensa que, colhida a azeitona, está o assunto resolvido e arrumado, está bem enganado. Começa então outra aventura, a de escolher o lagar onde vai obter finalmente o oiro líquido, produto ícone da nossa região. Com a probabilidade de vir a ter um bom par de horas de espera, só suavizadas pelo delicioso aroma do azeite novo que ali se respira e pelas conversas que vão acontecendo.
E é impossível não recuar no tempo em que não havia aldeia que não possuísse um ou mais lagares. Onde se podia conversar com o mestre e acompanhar todo o processo de produção. E lembrar os meus tempos de infância, quando ia ao lagar com uma grande fatia que a minha mãe cortava do pão cozido no forno do quintal, feito com a farinha do trigo semeado pelo meu pai e moído no moinho do ti Pisco. Torrado no borralho da fogueira do lagar, o mestre pegava no pão e mergulhava-o na tina, a tarefa, para onde corria em bica o azeite acabado de obter das prensas. São as tibornas, como as que ainda ontem se fizeram de azeite novo, na Associação da aldeia e que continuam a fazer parte dos hábitos alimentares da minha família. Ao pequeno almoço, com uma boa xícara de café de mistura, as tibornas, com as torradas bem molhadas em azeite e mel, continuam a fazer parte do nosso pequeno almoço saudável, de dieta mediterrânica.

04/11/2026
 

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