Valter Lemos
ISTO ESTÁ A VIRAR…
Escrevo este texto um dia antes das eleições intercalares nos EUA. Não sabendo ainda o que vai acontecer, sei, no entanto, segundo todas as sondagens que os republicanos (Trump) vão perder lugares, ficando seguramente em minoria no Congresso e talvez no Senado.
Estas eleições sucedem-se às brasileiras, onde o bolsonarismo (versão do trumpismo para subdesenvolvidos) foi claramente derrotado, não só nas urnas, mas também, na psicologia social dos brasileiros e de muitos outros. A direita brasileira, vai ter que, felizmente, procurar novos caminhos e novos protagonistas (e, já agora, a esquerda também, porque Lula não é eterno).
Em Israel, Netanyahu, apesar de ter o partido mais votado, viu a sua coligação de direita radical perder a maioria e até (ironia do destino) os partidos árabes israelitas terem o maior crescimento de sempre e ficarem como fiel da balança para a constituição do futuro governo.
Na Sérvia, Vucic, o anti-europeu amigo de Putin e de Trump, sofreu uma derrota clamorosa, perante um quase inorgânico movimento dos estudantes, mostrando bem a rejeição do povo à sua governação.
O mesmo já havia sucedido com Orban que fora rejeitado de forma arrasadora pelo povo húngaro nas eleições.
Também na Suécia a tão propalada eventual vitória da extrema-direita, não só não ocorreu como foi mesmo a esquerda a ganhar.
Praticamente num só ano a extrema-direita e a direita mais radical viu e sentiu as quedas de Bolsonaro, Orban, Vucic, Netanyahu e o início da decadência de Trump e do trumpismo. O vírus da extrema-direita parece finalmente começar a recuar embora os estragos já feitos e os que ainda irão ocorrer sejam de grandes dimensões. Mas, a verdade é que onde a extrema-direita ou a direita mais radical tomou o poder tudo piorou. No Brasil, na Hungria, na Argentina, etc. Com uma exceção que deve ser referida: a Itália. Mas, sempre referi que Meloni não é extrema-direita. É direita conservadora, mas longe da insensatez dos trumpismos e dos tiques fascistoides de Orban e dos partidos anti-europeus. Aliás, recorde-se, uma vez mais, que Meloni se insere no Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus, enquanto a extrema-direita italiana de Salvini está com Orban, Le Pen, Abascal e o Vox e também André Ventura e o Chega português no grupo Patriotas pela Europa.
O discurso radical, demagógico, simplista e grosseiro da direita radical parece ter seduzido muitos durante o primeiro quartel do século XXI. Nos EUA, Brasil, Argentina, etc. nem é muito surpreendente, dado que são sociedades com maiores desigualdades, mais preponderância das igrejas e menor tradição de laicismo, mais libertárias, mas menos liberais e com grandes massas de subescolarização. Mas, na Europa, as razões da expansão desse discurso parecem não se relacionar tanto com esses fatores, mas mais com um mal-estar proveniente da estagnação do estado social.
O modelo social europeu construído na segunda metade do século XX criou uma sociedade de bem-estar, que foi sempre conseguindo melhorar as condições de vida dos cidadãos. O continuado crescimento económico permitiu desenvolver um estado providência global e inclusivo com educação universal, proteção na saúde, proteção na dependência, na doença, no desemprego e na velhice para todos. Quando as crises energéticas começaram a ter lugar e se iniciou o abrandamento do crescimento económico o modelo começou a mostrar sinais de crise. Com o desenvolvimento tecno industrial da China e outros países do Oriente e com o correspondente efeito no crescimento económico a transferir-se da Europa (e EUA) para aqueles países as consequências no modelo europeu foram inevitáveis. Menos crescimento económico e logo menos capacidade de distribuição e assim crise no estado de bem-estar. O crescimento do descontentamento torna-se natural e óbvio. Todo o mundo tem menos bem-estar do que a Europa, mas isso não impede que os cidadãos dos países europeus continuem a querer mais.
Os responsáveis políticos dos países europeus não tiveram nem cérebro para encontrar novas soluções, nem coração para explicar aos cidadãos os problemas existentes. Estas situações de impasse, na política como na vida em geral, são sempre os contextos ideais para os demagogos, os burlões, os vendedores de remédios milagrosos. Quando estão frustradas as pessoas acreditam em quaisquer culpados, que não sejam elas próprias, e em qualquer remédio que tenha um nome diferente do que tomaram antes.
Mas há sempre um dia que acabam por perceber que, afinal, o remédio não produziu efeito nenhum e até pioraram a sua situação.