Edição nº 1728 - 9 de fevereiro de 2022

José Dias Pires
A DESBONDADE DO MUNDO - PARTE 2

Apesar da dúvida metódica que sempre acompanha qualquer jovem demónio quando se confronta com o imagina ser uma “bala filosofal”, o Pai-de-Tudo com a ajuda do Diabinho Angelical, depois de criar a Terra, passou a semana seguinte na azáfama de a encher de tudo o que era necessário e despiciendo (como agora se diz a torto e a direito).
Entre estrondos criativos, o Pai-de-Tudo industriava o seu ajudante: «Olha para mim diabinho angelical! Ainda tens muito que aprender. Vou dar-te uma boa pista para vires a ser um Diabo Divinal. Em primeiro, cria-se o líquido de viver com a ajuda de um segredo de alquimista. Juntas duas partes de H a uma de O, e depois, de uma vez só, com um pouco de jeito o fundamental está feito: já temos luz para aquecer, e este líquido fundamental. Podes beber! «Bolas! Mas isto é água salgada!» «Então o que querias que fosse?» «Sei lá, água doce!» «Vou mandar ao sol que faça o que tem a fazer. Depois de eu criar as nuvens virá a chuva e já podes beber.»
E continuou o rodopio! De um lado para outro, e entre explosões imponentes, os dois lá iam recheando a terra com os seus componentes. O Pai-de-Tudo e o Diabinho Angelical iam andando para trás e para a frente e paravam sempre junto a bola branca acompanhados de estrondos. PUM!!! PUM!!! PUM!!! PUM!!!
«Já lá estão vegetais, muitos bichos, gases, minerais o que é preciso mais?» «Sei lá, o homem, não?» «O homem pode esperar. Deixa cá ver… já criei ruminantes, trombudos, rastejantes, voadores, a Árvore do Bem e do Mal, e… deixa cá ver… já só me falta inventar…» «O homem, que diabo!» «O homem é no fim. Já sei! Para acabar a minha obra, falta inventar a cobra!»
PUM!!! PUM!!!
Ouvido isto o Pai-de-Tudo foi sentar-se no cadeirão branco a pensar. E o Diabinho Angelical, como não havia mais nada que fazer, agarrou na bola branca e lançou-a para longe. Ouviu-se um estrondo, as luzes estremeceram. A bola branca veio devolvida, agora já com o azul e o castanho a predominar entre laivos tímidos de verde. O Diabinho Angelical agarrou na bola e foi colocá-la no local onde estava e comentou: «A bola branca sujou-se! Estou tramado! E nunca mais se cria o homem para começar a festa! E é melhor ser depressa que daqui a pouco é o fim da semana…» «Estou a ouvir as tuas palermices! A semana só termina ao sábado! Descansas no domingo! Pronto, vamos lá então criar o homem! Ora o homem deve ser…» «Isso é que era bom! Também descansamos no sábado! Manda é o sindicato! Espera aí! Antes de mais, alguém tem de escrever isto para haver escrituras! Tens de criar a escrita e quem a saiba usar!» «A saiba usar?» «Sim, um diabinho angelical cor de rosa com apoio redondo atrás para não se cansar de estar sentado e dois apoios redondinhos à frente para os escritos saírem direitos.» «E mãos?» «Sim, mãos, pernas e peitos!» «Essa será a minha luz… deixa cá ver como hei de dizer… será a mulher. Chamar-se-á Eva. E o homem? Que forma terá?» «Sei lá! Se a mulher é a tua luz, talvez o faças parecer a tua própria sombra!» «Gosto da ideia! Vai buscar-me um bocado de barro!» «Barro?» «Sim, para fazer o boneco! Depois logo lhe dou vida!»
O Diabinho Angelical foi buscar o pedaço de barro e o Pai-de-Tudo fez o boneco a partir da sua própria sombra. Ouviu-se o habitual estrondo.
PUM!!! PUM!!!
«Pronto! Está criado o homem! Chamar-se-á Adão. Tu serás o padrinho. Vou mandar este Mundo para o outro lado do universo e és tu que vais indicar-lhe o caminho.» «Eu? E achas que é avisado encarregar um demónio de tal recado?»
E, apesar dos riscos que o Pai-de-Tudo não pesou, assim foi.
O Adão, à procura do seu lugar no mundo e do melhor assento no paraíso terreal, reclamava: «Sou uma alma abandonada por alguém sem sentimentos e apenas por obstinação. Parece um pequeno nada, mas, no lugar onde me sento, está, resplandecente, o chão. Tudo é perigo, constrangimentos, vivo dos meus pensamentos e só vejo o meu umbigo. Estou a fenecer de loucura e de cansaço, preciso de beber um bom copo de bagaço. Só depois, e já bem aquecido, qualquer maluqueira será luz e falarei, bem bebido, com um discurso de truz!»
E bebeu, para depois falar: «Olho-me de frente: estou nu e não vejo o verso, que os meus olhos ainda não dão a volta. Sei, de repente, como é perverso andar por aí à solta. Mas vou, que a frente e o verso são as duas faces da medalha. Que emoção! Então não é que é sempre o cunho que atrapalha?!»
Farto desta lengalenga, o Diabinho Angelical decidiu falar: «Parece que me confundo: tu, meu caro Adão estás na Terra ou és o Mundo? Repara: atrás de ti, já vi, anda sempre um diabinho cor de rosa! E atrás dele, para, como espero, compor a obra vai um bicho com um pero entre dentes. Ora viva, dona cobra! Vai, Adão, vai! Vai-te ao pero, Adão! Quem o morder vai triunfar, vai vencer! Muito bem, bela dentada! Boa decisão, a tua! O resto não interessa nada! Mostraste ter muito juízo.»
Interrompe o Pai-de-Tudo: «Ainda agora começou e já comeram o fruto proibido? Tudo para o olho da rua! Acabou-se o paraíso!»
Nem mais. Assim se criaram os tempos atuais.

09/02/2022
 

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