Alfredo da Silva Correia
POBRE POVO NAÇÃO VALENTE - O NOSSO ENORME ENDIVIDAMENTO
No primeiro artigo desta série lamentei que os verdadeiros problemas que atravessamos não sejam devidamente equacionados pelos candidatos a deputados e mesmo pelos governantes. Como tenho dificuldades em não tratar minimamente o que afirmo vou, neste artigo e possivelmente em próximos, abordar alguns problemas que o país atravessa e que gostaria ver tratados com a profundidade devida. Também é possível interpretar que esta falta se pode dever ao facto de se ter a leitura de que tratar a realidade afasta votos, quando a mesma não é favorável, o que não é nada salutar para o desenvolvimento de uma sã democracia. Felizmente que o povo, consciente das dificuldades em se governar com minorias deu uma maioria absoluta a um só partido criando-lhe condições para que ele possa governar mas gerando-lhe uma profunda responsabilidade, já que deixa de ter desculpas. Vamos ver agora se ele é capaz de fazer as alterações estruturais necessárias nas nossas estruturas de enquadramento, a fim de que se evite que sejamos conduzidos para a cauda da Europa em termos económicos, cuja tendência tem sido uma realidade.
Assim, começarei por referir que um dos grandes problemas que actualmente vivemos é o do nosso enorme endividamento. De facto, estamos entre os três países mais endividados da Comunidade Europeia o que, só por si, já se deveria constituir numa grande preocupação dos nossos governantes. É verdade que, por exemplo, a Itália ainda tem uma divida superior à nossa, mesmo em termos percentuais do PIB. Não obstante, acontece que esta é sobretudo divida a credores italianos, quando a nossa é na sua grande maioria externa. Desta forma, quando chegar o momento da taxa de juro crescer, o que não estará muito longe, vai acontecer que o nosso Estado tem de fazer grandes esforços para suportar o crescimento de tal custo, limitando-o muito noutros apoios às populações, também porque quando o endividamento é interno o seu custo, penalizando quem o suporta, anima em alguma medida a economia dos beneficiários e consequentemente a economia nacional. Já quando a divida é externa, como acontece com a nossa, o seu custo, vai animar como é óbvio a dos povos credores. Sendo assim, seria óptimo que se fizesse algum esforço, para inverter esta tendência ao cresci-mento do endividamento, começando por esclarecer da necessidade de políticas que conduzam a que o nosso Orçamento de Estado seja concebido sem ter de obrigar ao crescimento do mesmo, para que um dia não tenhamos de sofrer muito, quando a taxa de juro subir. Hoje, as envolventes socioeconómicas, a nível mundial, estão em inversão nítida, relativamente às características que tinham durante a última década, o que está a conduzir a um forte crescimento da taxa de inflação, para valores que há muito não ocorriam. Este crescimento não deixará de conduzir ao da taxa de juro, o que nos vai exigir fortes esforços. Os Estados Unidos da América, por exemplo, já definiram crescimentos sucessivos da taxa de juro, o que acabará por ter efeito de arraste na praticada pelo Banco Central Europeu e consequentemente no custo com novos financiamentos. Efectivamente vivemos um período em que as envolventes so-cioeconómicas mundiais estão inclusivamente a conduzir à carência de certos bens essenciais à vida, como resultado da procura dos mesmos ser superior à oferta. Neste âmbito não é só a energia cujo preço cresce significativamente, mas também muitos equipamentos e peças para os fabricar estão já a atingir preços com forte crescimento, muito limitando a nossa economia. Há ainda já sinais de que o sector dos cereais, um bem fundamental à nossa alimentação está já a sofrer uma forte desadequação entre a oferta e a procura respectiva, fazendo crescer o respectivo preço, o que vai gerar grandes dificuldades. Há quem defenda que esta tendência será passageira mas eu temo que se venha a revelar mais estrutural do que conjuntural por, para além dos reflexos da pandemia na produção e das alterações climáticas estarem a limitar a oferta, o crescimento da procura dos povos emergentes também é actualmente uma realidade, tudo con-tribuindo para uma desadequação entre a oferta e a procura de muitos bens, com reflexos nos respectivos preços.
Assim com estas envolventes socioeconómicas mundiais preparemo-nos para tempos difíceis em termos económicos. Endividados como estamos não poderemos deixar de vir a sofrer fortemente as duras consequências, não só do crescimento dos preços de bens fundamentais, mas também do crescimento da taxa de juro, já que tem de se fazer face ao crescimento do custo de ambos. Assim, tudo deveria ser feito para conseguir melhor equilibrar os nossos consumos com a produção efectiva, incentivando ao empreendedorismo, em vez de o sacrificar como tem acontecido com inúmeras exigências administrativas, a fim de que a nossa produção melhor equilibre a procura e permita inclusivamente que cresça.
Todos estes problemas deveriam ser-nos devidamente explicados pelos nossos políticos, a fim de que se gere uma consciência de que há envolventes socioeconómicas favoráveis, como as que vivemos na última década, mas que elas não duram sempre, acabando por chegar o tempo de se tornarem menos favoráveis à nossa sustentabilidade económica. Assim, é fundamental que se promova uma cultura realista e não a de que a solidariedade resolve tudo, já que quem dá não pode dar sempre e cada um tem de demonstrar que é capaz de fazer a vida de uma forma autónoma, o que estamos muito longe de conseguir. O nosso enorme endividamento não nos vai ajudar a vencer os tempos difíceis que se perspectivam num futuro não muito longínquo. Será que a bazuca evitará que caiamos em sérias dificuldades? É o que veremos.
(Ex-dirigente associativo empresarial)