Valter Lemos
O PAPA, A IGREJA E O DINHEIRO
A realização das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) em Lisboa tem dado origem a alguma agitação social e política nos últimos tempos.
Por um lado, os custos são obviamente um motivo fácil e popular para a discussão dando espaço às críticas e aos populismos do costume. E aqui juntam-se os populismos de direita e de esquerda. Ambos criticando a participação pública nos gastos, à direita porque isso permite atacar o governo e o estado e à esquerda porque dá oportunidade de atacar a igreja e também o governo e a Câmara de Lisboa.
Em última instância o argumento é que o dinheiro podia ser melhor gasto. O mais populista de todos os argumentos. Pois, o dinheiro pode ser sempre mais bem gasto… Se for em estradas pode ser em cultura e se for em cultura, pode ser em estradas… E se for em estradas e cultura pode ser em hospitais e se…
As tais jornadas são o acontecimento, em toda a história, que mais pessoas movimenta para e em Portugal, falando a organização em mais de um milhão de pessoas. Assim sendo e tendo em conta os custos de acontecimentos anteriores, como o Euro ou a Expo98, os custos públicos envolvidos não parecem muito elevados e é fácil aceitar a previsão de que o retorno a curto e médio prazo pode ser positivo e significativo.
Mas, o que parece indignar alguns é o facto de se tratar de uma iniciativa da Igreja Católica. Na verdade, a igreja não passa, neste momento, em Portugal e no mundo, por um período socialmente muito favorável. O seu silêncio e cumplicidade nos abusos de menores durante dezenas de anos no século XX (para não falar de séculos anteriores) é algo de completamente inaceitável para uma parte significativa da população, cuja atitude perante a própria igreja e até perante a religião mudou ou sofreu, pelo menos, um enorme abalo de desconfiança. Não são, pois, só os agnósticos ou os ateus e os laicos que veem com olhos críticos o apoio financeiro do Estado a uma iniciativa da igreja católica, são também os crentes traídos e os desiludidos.
A crise católica provocada pela divulgação dos abusos é profunda e a perceção pública da cumplicidade da hierarquia e, na prática, de toda a organização, simbolizada por bispos, cujas intervenções públicas bastas vezes marcadas pela soberba institucional, por ação ou omissão, produziram uma reação de repúdio de muitos setores da população.
Pode dizer-se que, hoje, um largo número de bispos é detestado pela população e a igreja ganharia muito em substituí-los rapidamente.
E a situação não é pior graças à existência de um papa cuja imagem é, hoje, provavelmente, senão a única, pelo menos a mais importante estrutura de confiança social da igreja católica. Para a maioria dos crentes e também dos não crentes, Francisco é a única personagem que suscita confiança. Creio mesmo que a escolha deste papa foi já o passo mais importante dado pela igreja para fazer frente aos problemas de credibilidade e confiança que se colocavam e que a própria igreja sabia bem que iriam agravar-se.
Um homem simples, mas inteligente e dialogante, sem esqueletos no armário, com um apostolado centrado nos mais pobres e um discurso de tolerância, ao mesmo tempo radicalmente cristão, mas centrado nos problemas sociais contemporâneos.
Na verdade, o papa tem sido a face cristã original tolerante da igreja contrapondo à imagem obscura, farisaica e inquisitorial da instituição.
A escolha de Jorge Bergoglio e a sua transformação em Francisco foi, pois, a decisão mais acertada para os tempos que a igreja católica vive e para o seu relacionamento com o mundo atual, seja ela uma decisão divina (para os crentes) ou uma decisão humana (para os não crentes).
Mas, apesar do enorme e manifesto esforço do papa a crise da igreja não está debelada. Uma organização complexa, milenar, de dimensão mundial assente no dogma e na hierarquia, muda com muita dificuldade. Mas os tempos são hoje de grande exigência. A revolução tecnológica acelerou a produção e divulgação do conhecimento e consequentemente as mudanças sociais.
Como diz Harare, já não basta ao homem acreditar em Deus (ou não acreditar). O Homem quer fazer de Deus e isso coloca em crise todas as crenças.