José Dias Pires
A CEGUEIRA
Nos primeiros tempos de ausência de luz, sofreu humilhação atrás de humilhação. As pessoas, quando mal conformadas com a diferença, conseguem ser muito cruéis: na sua aparente caridade, murmuram em sussurro cuidando que quem não vê também não ouve.
“Coitado do ceguinho, em vez de um cão, tem um pássaro!”
“Pobre rapaz, como será que ganha a vida se nem acordeão sabe tocar?”
Um dia, disparatou:
«Dispenso a vossa preocupação com o que faço da minha vida. Surpreende-vos que não tenha medo da rua? Então deveis espantar-vos com o ceguinho que fala, mas não canta. Sou um dos que nunca conviveram com a luz diurna para combinar sempre com as luminosas sombras da noite. É na noite que vivo a respirar o dia e a absorver a luz que desperdiçais. É na noite que anuncio, através de um teclado metálico, todos os mistérios que a ignomínia diurna esgota sem se perguntar da vida. Sei que nem todos sois assim. Esses, respiro-os com a ponta da língua: as suas palavras são saborosas, os seus gestos não têm esquinas e a sua marcha é musical, feliz, vê-se e sente-se, depois do amor. Os outros entram-me pelos ouvidos e incomodam, cheiram-me a antigo e aborrecem-me, entram-me pelos poros e doem-me, morrem engelhados e não sabem sempre antes de amar.
Vá, pensem agora: “o gajo é doido”! Pois sou. Sei que não me entendem, mas fingem, não é? É assim que se comportam os ignorantes. »
Partiu, com um sorriso que adivinhava a incompreensão de muitos, enquanto ouvia: «Coitado, enlouqueceu. Agora até já fala poesia.»
Gosta de falar poesia sem saber, nem querer, defini-la. Especialmente agora que vive, em descanso, a mais improvável amizade depois do amor cansado.
E o poeta?
Consegue imaginá-lo na duplicidade daquele que faz e do que por ele é feito: a aranha e a teia.
Qual é o poeta? Quem é poesia?
O bordado fiado do mais íntimo recanto da fiandeira que balança e embevece, em contra luz, todas as palavras penduradas na sua rede coerente que cada linha esconde?
A fiandeira que pariu a sua atração pelos amantes da luminosidade filtrada em fios requebrados e emoções em espera?
E porque não uma borboleta, por oposição à aranha?
E uma flor para contrapor à teia?
A poesia, trabalhosa amante da criação, preferirá a aranha e o seu denodado trabalho que atrai os desatentos?
O poeta, imprevisível amante do belo, mesmo quando o belo é feio, preferirá o bailado sedutor da borboleta?
Para o criador e a criação, ambas se transformam numa só: beleza trabalhada, atração sedutora, renda, voo no mais completo dos lirismos que é o desmaio no pequeno instante da consumação do amor.
Mais tarde, sempre nos bate à porta a tristeza que é a alegria limitada dos que deixaram esvair-se o amor.
Assim ele, assim consigo.
Ainda hoje não tem respostas.
Cansou o amor por tanto olhar para dentro de si e de perder as mãos na leitura de outras companhias?
Ou seria por ciúmes da coruja que o acompanhava sem nada exigir em troca nas noites mal acordadas?
Cansou o amor e sabe, sem a medir a palmos, a verdadeira dimensão da saudade, em momentos de ausência.
Apesar da Liberdade, por vezes, sente em exagero o peso da solidão. É uma sensação de silêncio tão dolorosa que o percutir, no papel, dos braços metálicos do teclado da sua máquina de escrever se transforma numa tempestade insuportável que vence a melhor sinfonia a rodar no prato do gira-discos.
Nesses momentos, ele, que tanto gosto de falar poesia, transforma-se em prosa insípida, monocórdica e cinzenta.
Sinal dos tempos.
Aprendeu a escutar com as mãos o que os ouvidos oferecem e a memória do olhar perdido ainda retém. Talvez por isso se tenha cansado o amor. As suas mãos observam, completam o olhar que lhe entra pelos ouvidos, nariz e boca. Ajudam-no a voltar à memória das sensações que construiu à sombra da luz exterior. Depois, muito do que importa sentir passa pela ponta dos dedos que procuram nos corpos frios, tépidos ou ardentes as formas esquinadas, redondas, côncavas, convexas.
Algumas correspondem ao amor; outras apenas, e é tanto, ao prazer dos sentidos agora apurados, vencidos os primeiros tempos de ausência de luz e as humilhações sofridas.