Edição nº 1831 - 14 de fevereiro de 2024

José Dias Pires
AS DEZASSETE PREPOSIÇÕES INCONTORNÁVEIS

São estes os princípios pelos quais se regem os lobos disfarçados de cordeiros:

1 — A um não devas, mesmo que a dívida seja um “obrigado”, que não é assim tão pouco. Contudo, nunca te endivides com um bem-haja.
2 — Ante dois não te comprometas, especialmente quando um é o eco do outro.
3 — Após três tentativas de corrupção, desiste, porque se a repetição é admissível, uma nova repetição é uma pura perda de tempo e de dinheiro.
4 — Até quatro repetições de um boato não há notícia, apenas exercício jornalístico de competição corporativa. Por isso, convém que arregimentes um batalhão de boateiros, olha: usa o facebook.
5 — Com cinco favores, tens servidor para sempre, e devedor conveniente!
6 — Contra seis teimosos, passa ao lado, e com um sorriso condescendente, mas não te esqueças de arranjar quem lhes fure os pneus do automóvel.
7 — De sete dias não se faz um mês, mas constrói-se o direito a uma nova semana, especialmente para os que trabalham para ti.
8 — Desde oito favores se ganha o dia e justifica a noite, na certeza de que não há refeições gratuitas, para os outros.
9 — Em nove meses se esvaziam as barrigas das mentes sedentas e se enchem, para sempre, os calendários dos interesseiros.
10 — Ante dez jurados, finge-te inocente, para que quem se segue não te condene, antes te aplauda.
11 — Para onze fracos, arma-te em forte, mas sempre com um passo bem largo e a mão no bolso a segurar a arma.
12 — Perante doze parceiros, mascara-te de magnânimo e mantém-te estrategicamente forreta à espera de quem se chegue à frente para a despesa.
13 — Por treze azares, dos outros, se ganha o ano em proveito próprio.
14 — Sem catorze dentes, não sorrias, mas aprende a assobiar conveniências.
15 — Sob quinze desculpas se escondem os erros virtuosos, e se enterram acertados defeitos.
16 — Sobre dezasseis vénias se erguem as rampas intransponíveis a fiéis e obedientes servidores.
17 — Trás dezassete mentiras, impiedosas e privadas, se constrói, em teu proveito, a verdade pública e a infelicidade dos incautos.

Com estes princípios, vestidos casacões de peles de cordeiro, se preparam, estes lobos, para não assustar os nossos sentidos, usando as artimanhas aprendidas nos painéis das televisões: uivos transformados em palavras mansas e focinhos maquilhados em níveas faces angelicais que, apesar de aliadas dos ódios e do mau dinheiro, entoam nos seus lábios, bem treinados, venenosos balidos de cordeiro. Este lobos viajam rodeados pelo rebanho, e sempre a sorrir, estão preparados para devorar todos os pastores.
São os novos lobos maus da velha história e estão prontos para nos barrarem o caminho.
Cuidado, se queremos ser futuro, e ter memória, não podemos ser nós o capuchinho.

14/02/2024
 

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