Lopes Marcelo
VIVAM AS JANEIRAS
No âmbito da cultura popular tradicional o mês de Janeiro é muito rico. Inicia-se na continuação do ambiente festivo decorrente do solstício de Inverno em que a luz vence as trevas com a duração dos dias a começar a aumentar. Recomeça a germinar nova energia e renovada esperança que vai explodir na Primavera. A par do acordar da vitalidade na natureza, associou a Igreja a dimensão fundadora do Natal, fixando o nascimento do Redentor, essência de renascimento, de anunciação da Boa-Nova, socialmente de votos de Boas-festas. Nas comunidades rurais é muito antiga a tradição de se entoarem em grupo cantigas populares no dia de Ano-Bom dedicadas às pessoas mais representativas, em princípio à capela mas também acompanhadas pela melodia de um instrumento típico, na nossa região a concertina ou o acordeão. É cada vez habitual tais cantigas se prolongarem por todo o mês de Janeiro.
No contexto da minha terra, Aranhas no concelho de Penamacor, o cantar das janeiras nas últimas décadas foi assumido pelo Rancho Folclórico que percorre todas as casas entoando a alegre saudação:
Ainda agora aqui cheguei
já pus o pé na escada
logo o coração me disse
aqui mora gente honrada.
E, no tempo das matações dos porcos e a artesanal confecção de enchidos, prossegue a cantoria: Levante-se lá senhora/desse assento de cortiça/venha-nos dar as janeiras/morcelas ou chouriças; Se o presunto está teso/ e a faca não quer cortar/ faça-lhe ferrum fum fum/nos beiços do alguidar; e a rematar: De quem é o chapéu preto/ que ali está dependurado?/ É do patrão desta casa/que é um cravo encarnado. O enchido recolhido era guardado e, no último fim de semana do mês, integrava uma festiva refeição comunitária seguida de baile.
Na última década celebra-se no final de Janeiro em Aranhas a Festa do Fumeiro, a designada Festa das Varas. Ora se é no âmbito das janeiras , qual o porquê deste nome?
Em Aranhas a festa principal é em honra de Nª Senhora do Bom Sucesso que se realiza no terceiro Domingo do mês de Agosto. Todos os anos, os festeiros para prepararem a festa e angariarem receitas realizavam no Domingo a seguir à Páscoa, o designado Ramo da Carne com duas componentes: o enchido e gado vivo. De facto, no Sábado anterior um grupo de festeiros corria todas as casas da povoação e usavam umas varas compridas com pregos na ponta para recolher o enchido que lhes davam do cimo dos balcões e das janelas. Outro grupo de festeiros, deslocava-se às malhadas dos proprietários de rebanhos e recolhiam borregos e cabritos que eram ofertados para a Festa. O enchido e os animais eram leiloados no dia seguinte no adro da igreja em ambiente festivo.
Constituindo o enchido uma tradição cultural e produtiva relevante e que diferencia a povoação, em 2015 gerou-se um movimento entre as forças vivas locais, com destaque para a Junta de Freguesia e o Rancho Folclórico, visando valorizar o património produtivo genuíno e a identidade cultural relacionada com o cantar das janeiras. Foi, assim, organizado o evento cultural no último fim de semana de Janeiro com a designação AINDA GORA AQUI CHEGUEI, precisamente o primeiro verso do cantar das janeiras. A população aderiu de forma notável, abrindo as suas casas, lojas e garagens, para expor e vender os seus produtos e confeccionando os pratos mais típicos da gastronomia local, com destaque para o enchido. Recreou-se o Ramo da Carne levando-se o enchido nas típicas varas até ao adro para ser leiloado. Daqui a designação de procissão das varas ou Festa das Varas que se tornou vulgar e foi a mais adoptada na Comunicação Social, embora não corresponda à origem. Do que se trata é de uma festa de rua, de forte vibração comunitária em que de forma espontânea e directa se divulgam os produtos do artesanato alimentar e decorativo em animado mercado rural. Em muitas lojas os artistas da terra mostram e vendem as suas obras, predominando a pintura, a escultura e os bordados. Os dois momentos mais altos são o desfile das varas do enchido até ao leilão no adro e o festival de folclore. Trata-se da revisitação das antigas feiras francas muito importantes para o desenvolvimento da economia local. Com este espírito é desde 2016 proclamada publicamente uma Carta onde consta:
Festa das Tradições, as Janeiras em Aranhas
Em nome do povo de Aranhas, dos seus valores e saberes, na vibração da sua Identidade cultural, proclama-se a todos os habitantes e aos vindouros que continuem cidadãos livres e se mantenham fiéis guardiões dos saberes e dos sabores das genuínas tradições desta honrada e antiga povoação.
…(São cantadas as quadras das janeiras)
Tendo-se tornado Freguesia no século XIX reforçaram-se os laços de parentesco e de convívio com as terras vizinhas, designadamente de Espanha, gerando-se uma valiosa herança cultural que é a sua Identidade. No mundo aberto e global dos nossos dias, esta Festa das Tradições valoriza o sentimento de pertença no reforço das raízes comuns.
…Que esta Festa e Mercado Tradicional se realize em todos os anos vindouros, na vibração colectiva da Identidade Cultural do povo de Aranhas