João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ACABADO DE RECEBER, ainda fresquinha nas minhas mãos, a revista literária LER. Ela traz como tema de capa uma interrogação: Há uma Crise na Ficção? A resposta está no interior em três textos que ainda não li. Mas para onde o editorial do diretor Francisco José Viegas já aponta algumas razões. Para a qualidade das obras de ficção que se vão publicando em catadupa, muitas que nem chegam aos escaparates das livrarias ou que por lá ficam meros trinta dias que a rotatividade assim o exige. E para a contínua diminuição de leitores, ainda que quem visite uma livraria, mesmo na nossa cidade, se sinta confortado por ver tantos compradores crianças e adolescentes (e também, um claro predomínio de clientes mulheres) a prenunciar dias menos sombrios para o mundo editorial.
É um amargo Francisco José Viegas que lembra que mais que desinteresse pela ficção temos um problema de literacia. Refere o estudo da OCDE, que aliás já aqui trouxe num apontamento há algumas semanas, que mostra que, em todo o Mundo, o raciocínio verbal e abstrato, tal como a capacidade de concentração e compreensão de frases complexas, estão francamente em declínio. Citando o Financial Times, teremos entrado no “mundo pós-alfabetizado” que promove a substituição da leitura que exige concentração, pela atenção infinita a ecrãs que se vão sucedendo a ecrãs, a superficialidade e da estupidez no primado das redes sociais. Em 1976, 40 por cento dos estudantes universitários leram seis livros num ano, contra 11 por cento que não tinham lido nenhuma. 50 anos depois, 65 por cento dos estudantes não tinham lido sequer um livro.
Umberto Eco em 2015, dizia que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”, e argumentou que o problema das redes sociais não é a sua capacidade de disseminar informação, mas a ausência de filtragem e verificação editorial que se perdeu em relação aos media tradicionais. Que antes da Internet o “idiota da aldeia” (pessoa com opiniões infundadas ou ignorantes) tinha o seu espaço num bar ou café, onde era ouvido apenas por um pequeno grupo, e o seu impacto na coletividade era insignificante. Com a Internet/Redes Sociais, o mesmo indivíduo é elevado ao mesmo patamar de uma autoridade (como um especialista ou um Prémio Nobel). A opinião infundada ganha uma plataforma global, sendo replicada e ganhando uma aparência de legitimidade e verdade, e desemboca no risco de a ignorância e a desinformação se espalharem em grande escala.
E tudo isto anda ligado ao problema da literacia, à incapacidade de ler e compreender texto extensos ou complexos. Sabe-se que parte importante dos frequentadores das redes sociais, não passa da leitura do lead da notícia. E é esta iliteracia dos media digitais que abre a porta ao populismo e que põe em risco a saúde das democracias liberais.