Joaquim Bispo
MANIPULAÇÃO DE MASSAS
Quando Roberto e a mulher chegaram à aldeia beirã dos pais dela, encontraram a mãe de Vanda a amassar as filhós. Espetava os punhos fechados na massa, com energia, ora um, ora outro, pegava numa ponta esparramada de um lado e dobrava-a por cima do resto, voltava a empurrar e a esmurrar, num sovar diligente.
A operação parecia uma luta deleitosa, sem fim utilitário, mas aos poucos foi surgindo uma pasta lisa, carnal e maleável. Por fim, rotunda, alva e sensual como nádega de mulher, foi polvilhada com uma última capa de farinha e acomodada a um lado da masseira e coberto com um cobertor, para manter a tepidez necessária para a massa levedar. Por baixo, uma braseira acesa.
Ao fim da tarde, com a massa das filhós quase a transbordar da masseira, reuniram-se todos na cozinha velha: um espaço que mantinha uma lareira antiga semicoberta por uma chaminé de grande tiragem. Na pedra do lar, vários cavacos acesos a aquecer uma caldeira de cobre, meia de óleo, sobre uma trempe.
Curioso por experimentar, Roberto ofereceu-se para tender as filhós. Sentado num banquinho baixo perto da caldeira, com uma tábua de cozinha sobre os joelhos, separava um punhado de massa, de um alguidar para onde fora transferida, rolava-o nas mãos a formar uma bola e esticava-o com os dedos sobre a tábua até conseguir obter um círculo de uma grossura uniforme de menos de um dedo e um palmo de largura. Então, com uma carretilha, aplicava ao interior uns cortes em ziguezague, para uma fritura eficaz e largava a filhó suavemente no óleo fervente.
Do outro lado do alguidar, a irmã de Vanda também tendia, e o marido, com um espeto, geria a fritura e tirava do óleo as filhós já fritas. Vanda distribuía-as por cestinhos e caixas, enquanto Dona Rosália as polvilhava com açúcar e mantinha as crianças longe do lume e do óleo quente, deixando-as também pôr o açúcar. O Senhor José, o patriarca, ia administrando o fluxo de lenha, para manter uma chama contínua, mas não excessiva.
O primeiro contacto de Roberto com a massa foi uma surpresa. Não estava habituado àquela deliquescência oleosa e a sensação de mãos sujas retraiu-o. A maleabilidade sugestiva foi a primeira sensação estimulante. Depois, a textura e a densidade carnais tomaram conta dos seus sentidos. A massa macia e moldável transmitia às terminações nervosas das suas mãos sensações de grande carga sensual. A ilusão de tocar e manipular partes de um corpo feminino era muito real e perturbadora. Como bola, a massa dava a ilusão de seio, macio e deformável; como superfície, lembrava pescoço, barriga, interior de coxa. Os sentidos sabiam-se enganados, mas rejubilavam, alucinados, e alguma coisa no seu corpo se inteiriçou. Ao vê-lo embevecido com a bola de massa entre mãos, o cunhado provocou, irónico:
- Mais vale uma na mão que duas... na cesta.
Toda a gente percebeu a piada e as alusões a toda a morfologia que a massa ia sugerindo mantiveram o grupo em grande galhofa, até que a massa no alguidar se esgotou. Era altura de lavar e arrumar tudo e de saborear as filhós com calma. Divinais!
Depois do bacalhau e das couves do jantar, foram ver a fogueira ao largo da igreja e voltaram para distribuir as prendas, pois já ninguém aguentava as crianças. Antes do deitar, aconchegaram o estômago com mais umas filhós e uns copinhos de jeropiga. Era um remate perfeito. O patriarca da família estava contente. Chegou-se a Dona Rosália, amoroso, insinuante, atiçado.
- O que é que te deu hoje, Zé? - fingiu reclamar ela.
- Acho que é das filhós! - sussurrou vaidoso. - As tuas são as melhores - acrescentou, fazendo deslizar os dedos ávidos pelas sinuosidades da massa que bem conhecia, pronta a ser amassada.