Edição nº 1927 - 31 de dezembro de 2025

Cristina Branco
IDOSOS, OU A SOLIDÃO EM TEMPOS DE REDES SOCIAIS

Vejo num documentário a história de um homem de oitenta e três anos que foi burlado. A solidão levou-o a ligar-se sentimentalmente, através da internet, a alguém que nunca chegou a encontrar. Enviou-lhe mais de vinte mil euros. Explica, com uma serenidade desarmante, que ela lhe dirigia palavras de amor, de carinho, que o fazia sentir-se visto, escolhido, importante.
Antes de nos rirmos da alegada imaturidade de um homem de oitenta e três anos que, não sendo uma figura pública nem um homem poderoso, acreditou que uma mulher de trinta se tinha apaixonado por ele, talvez devêssemos parar. E tentar compreender.
Porque isto não é, antes de mais, uma história de ingenuidade. É uma história de miséria afectiva. De um vazio prolongado, silencioso, acumulado ao longo de anos. A solidão não chega de repente, instala-se devagar, como o frio nas casas mal aquecidas. E quando alguém, ainda que do outro lado de um ecrã, diz “gosto de si”, “penso em si”, “faz-me falta”, essas palavras ganham um peso imenso. Tornam-se abrigo.
A psicologia mostra-nos que a carência emocional altera o julgamento. Quando alguém vive privado de afecto, o cérebro passa a valorizar de forma desmedida qualquer sinal de atenção. Não é vaidade, é sobrevivência emocional. O amor, mesmo quando ilusório, activa os mesmos circuitos neurológicos do amor real. O corpo não distingue facilmente entre uma presença física e uma presença constante em palavras.
Rimo-nos porque olhamos de fora, protegidos pela nossa idade, pela nossa vida social, pelas nossas rotinas. Mas envelhecer é, muitas vezes, perder. Perder amigos, perder o cônjuge, perder o lugar no mundo, perder a utilidade social. Num mundo cada vez mais rápido, digital e indiferente aos mais velhos, alguém que escreve todos os dias, que pergunta como correu a noite, que chama “amor”, pode parecer um milagre.
Não se trata de acreditar que uma jovem se apaixonou. Trata-se de querer acreditar que ainda se é digno de amor. Que ainda se conta para alguém. Que ainda se existe.
Estas burlas não exploram a ganância, exploram a necessidade humana mais básica, a de ligação. Por isso atingem idosos, pessoas solitárias, viúvos, indivíduos emocionalmente isolados. O dinheiro é apenas o fim prático de um processo que começa no afecto simulado.
Talvez, em vez de rirmos, devêssemos perguntar que tipo de sociedade produz idosos tão sós que se agarram a palavras virtuais como a última tábua de salvação. Talvez devêssemos olhar para estas histórias não com escárnio, mas com desconforto, porque elas dizem menos sobre a ingenuidade de quem cai e mais sobre a falha colectiva em cuidar.
No fim, aquele homem não foi apenas burlado em dinheiro. Foi burlado no desejo de amar e de ser amado. E essa perda, essa, não se mede em euros.
Tal como os idosos, também os jovens isolados, as mulheres a quem imaginam carências são o alvo favorito desta praga.
Lembro o caso recente da mulher que enviou dinheiro para “um astronauta bloqueado no espaço”, ou a que acreditava que namorava com Brad Pitt…

31/12/2025
 

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