João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTÃO DOIS AUTOCRATAS e um candidato a sê-lo à volta de uma mesa. No meio da mesa, vários mapas. Pelo tom da conversa, parece uma reunião de condomínio. Discutem o quintal que cada um considera como sua pertença de direito histórico ou divino. São amigos, querem é a paz entre eles e por isso, respeitam, como zona de influência, o quintal de cada um… E na madrugada de sábado, ainda no ar ecoavam os desejos de paz e amor para 2026, o candidato a autocrata lança um ataque aéreo contra a Venezuela e captura o presidente Nicolás Maduro para o julgar nos EUA. Trump há muito tempo afirmava querer Maduro fora do poder, rotulando-o de narcoterrorista e oferecendo uma recompensa de cinquenta milhões de dólares por sua captura.
É uma história onde não há bons nem maus. São todos maus. Não serão muitos os que deitam uma lágrima que seja por Maduro, ditador, ilegítimo presidente saído de eleições fraudulentas, populista que deixa um povo na mais extrema miséria, e com as prisões cheias de adversários políticos. Mas também não são poucos os que criticam, pelo flagrante incumprimento do direito internacional, a ação aventureira e criminosa de presidente dos EUA, mitómano que se julga o dono do Mundo. Dos seus amigos autocratas, só para fazer de conta que ficaram surpreendidos com a operação, vieram umas tímidas palavras de repúdio e exigências pífias. Na certeza de que as ambições da Rússia na Ucrânia e da China em Taiwan terão a compreensão de Trump, como quem divide o Mundo em zonas de influência.
E no que nos toca, esta foi a confirmação de uma Europa fraca e receosa de afrontar a besta, que reagiu com tíbios protestos, com honrosa exceção do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez, que não poupou na dureza das palavras.
De tudo isto o que fica? Fica a certeza de que a democracia e o interesse do povo de Venezuela, nunca preocupou Trump. A ele só lhe interessa apropriar-se do petróleo, do ouro e das terras raras em que o País é rico. Por isso, bem podem os opositores de Maduro festejar a sua prisão e a esperança do regresso da democracia. Bem pode Maria Corina Machado, líder da oposição, pôr-se em bicos de pé e até querer oferecer a Trump o Nobel da Paz com que foi agraciada, que para ele, ela não conta para nada. Porque sabe que, para os seus interesses, o melhor é mesmo não haver democracia na Venezuela. Se os seguidores de Maduro garantirem colaboração com o governo americano, então serão esses que continuarão a governar.
Ficam as dúvidas sobre como reagirá a Europa e a NATO se a ameaça de anexação da Gronelândia, alegando motivos de segurança interna, se concretizar. A ameaça trumpista (“daqui a 20 dias falamos”…) está a ser levada muito a sério pela primeira ministra dinamarquesa, pelo chefe do governo autónomo da Gronelândia e pelos dirigentes europeus que mais importam. Esperemos pelos próximo capítulos da novela em que se transformou este Mundo louco, louco, que nós nunca imaginaríamos viver.