Edição nº 1928 - 7 de janeiro de 2026

Valter Lemos
TRUMP E A DIREITA EUROPEIA

O ano de 2026 começou, na dimensão internacional, com o ataque americano à Venezuela e a “extração” para os EUA de Maduro e a mulher para alegadamente serem julgados por tráfico de droga.
Nicolas Maduro era um ditador, ridículo, mas cruel, que esmagava e torturava o seu povo, tendo conduzido o país à indigência económica, com a completa destruição do aparelho produtivo e o exílio de mais de sete milhões de venezuelanos. Não merecerá qualquer desculpa ou sentimento de pena pelo merecido destino que lhe está atribuído.
Mas, no próprio dia do ataque, Donald Trump não deixou grandes dúvidas acerca da intenção americana, ao referir que os EUA iriam assegurar a governação do país durante os próximos tempos e que as empresas norte-americanas iriam explorar o petróleo venezuelano e que “iam fazer muito dinheiro”.
Já, por diversas vezes, Trump mostrou que algumas das suas decisões estratégicas, assentam numa ideia simplesmente transacional das relações internacionais, ou seja, o objetivo essencial é ganhar dinheiro (recursos). Essa orientação é completada com a chamada doutrina Monroe (1823) que, querendo afastar a Europa da intervenção política nos continentes americanos, reiterou que “a América tem um hemisfério para si mesma”, o que, na prática, tem como consequência dividir o mundo em zonas de influência das grandes potências. A esta visão do mundo chamou Trump, na intervenção sobre o ataque à Venezuela, doutrina “Donroe” introduzindo o “D” do seu próprio nome.
As consequências para a situação internacional desta orientação da administração norte-americana são vastas e radicais. Sendo as grandes potências, do ponto de vista da capacidade militar de natureza nuclear, a China e Rússia, para além dos EUA, fica legitimada a intervenção destas nas suas “áreas de influência”, em função dos seus interesses estratégicos ou até simplesmente económicos.
Assim, de uma penada, Trump legitima as intervenções da Rússia na Ucrânia e nos outros países da antiga união soviética. Legitima também a intervenção da China no Tibete. Mas não só. Abre caminho à intervenção em Taiwan e (naturalmente…) a uma possível intervenção dos EUA na Gronelândia! (E será que os Açores não poderão vir a ser considerados como essenciais à segurança dos EUA, tal como a Gronelândia?)
Onde fica a Europa neste jogo? E, já agora, o Japão? E a Índia?
É claro que, neste cenário, criado por Trump, a aliança EUA-Europa, que assegurou a paz no continente nos últimos 80 anos, é posta em causa. Aliás, a posição americana na Ucrânia e o escandaloso caso da Gronelândia são já situações inequívocas da doutrina “Donroe”. E o epitáfio da NATO, pelo menos no atual modelo, foi já enunciado pelo próprio Trump.
Nestas circunstâncias parece não restar grande alternativa à Europa senão unir-se e fortalecer-se do ponto de vista militar ou ficará ao jeito da Rússia neste novo mundo de “áreas de influência” militares. Mas, o curioso disto tudo é que a direita nacionalista europeia se opõe ao fortalecimento da União Europeia. Critica a Europa pela falta de força da mesma e, ao mesmo tempo, opõe-se ao seu reforço.
Mas torna-se cada vez mais claro que apoiar as atitudes e a política de Trump e opor-se ao fortalecimento da Europa só pode ser estupidez ou pior…

07/01/2026
 

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