COM SEXTO VOLUME DOS FÓLIOS DE POESIA A FECHAR O PROGRAMA PENAMACOR - VILA MADEIRO
Madeiro é poesia e fogo de mãos dadas
Madeiro- Fólios de Poesia VI, coordenado por Pedro Salvado e André Oliveirinha, foi apresentado no Teatro Clube de Penamacor, assinalando a última ação do programa de ativação identitária Penamacor - Vila Madeiro. Um programa que o presidente da Câmara destacou pela sua originalidade, ao conjugar e convocar a poesia como expressão ritual singular do ciclo do fogo. Para José Miguel Oliveira, este sexto volume afirma-se como “mais um marco relevante na valorização não só da identidade cultural das comunidades do nosso Interior, como também no diálogo entre duas línguas”, ao reunir poetas Portugueses e Espanhóis. A obra mantém uma linha eclética, de diversa densidade criativa, que celebra o fogo como elemento primordial, associando a tradição do Madeiro a vivências pessoais e coletivas. “O forte valor simbólico do Madeiro é renovado por estas abordagens poéticas, que já conseguiram reunir cerca de duas centenas de vozes, num encontro entre a poesia mais popular e a mais erudita, unidas num verdadeiro hino à solidariedade e à identidade comum forjada pelo fogo”.
A antologia reúne poemas de Adélio Amaro, Amadeu Batista, Antonio Carvajal, Armando Redentor, Bruno Ramos, Esmeralda Sánchez Martín, Gisela Ramos Rosa, Helena Carvalho, João Balthazar, Joaquim Saial, José Antunes Ribeiro, José Guardado Moreira, José Manuel Carreto, Lauren Mendinueta, Luís Serrano, Maru Bernal, Paulo Assim, Pedro Jubilot, Rui Sobral e Xavier Zarco, entre outros.
Tente Garrido, poeta e professor de língua e cultura portuguesas na Extremadura, sublinhou a originalidade deste projeto, que considera “um autêntico suporte de resistência cultural e uma plataforma de fraternidade cultural”.
O poeta e pintor Rodrigo Dias, autor dos desenhos que, em conjunto com fotografias de José Figueira e João Martins, compõem o caderno, ofereceu à Câmara uma tela desenvolvida a partir de um fragmento de um poema de António Salvado, texto fundador do projeto Madeiro – Fólios de Poesia. Para Rodrigo Dias, coordenador do Círculo Artístico e Cultural Artur Bual, o diálogo entre as artes visuais e o Madeiro vai continuar “é fundamental para a formação de uma futura pinacoteca de obras que tenham o fogo como fonte criativa”.
Recorde-se que Penamacor será a sede da futura Associação Ibérica de Celebrações do Fogo, uma estrutura transfronteiriça dedicada à salvaguarda, ao estudo e à promoção dos rituais tradicionais ligados ao fogo na Península Ibérica. O projeto literário será apresentado brevemente em duas localidades da raia espanhola e em Oeiras.
Esta nova entrega dos Fólios de Poesia Madeiro está ligada a uma das manifestações mais identitárias e distintivas de Penamacor. A edição continua a integrar o vasto programa de atividades em torno da extraordinária confluência patrimonial Penamacor - Vila Madeiro que o território promove e afirma no contexto nacional e internacional. Mantendo uma linha eclética que desde o início tem caracterizado o projeto, Madeiro, Fólios de Poesia, ao reunir poemas de distinta densidade criativa, entre a criatividade e a ingenuidade, alça hinos ao fogo enquanto matéria primordial: ora domesticada, ora furiosa e temida, ligando esta particular data do calendário religioso solsticial a outros momentos, uns pessoais, outros coletivos, e a geografias temporais em que o fogo está presente. A partir do rito que o cristianismo apropriou e que, na cultura portuguesa, se consagrou sob o nome Madeiro, os textos reinventam a chama unindo comunidade, memória e celebração. É uma coluna viva de palavras, uma ponte entre imagens e oralidades, uma representação concreta tentando, numa expressão mais erudita ou mais popular, aquilo que a filosofia e a poesia sempre buscaram: a reconciliação entre o ser humano e o cosmos, entre o sujeito e o espaço, entre o pensamento e a experiência. E é aqui que os fólios ecoam, com especial intensidade, a visão poética de Gaston Bachelard. Eles confirmam e ampliam as suas palavras luminosas: “O fogo é, ao mesmo tempo, íntimo e universal. Vive no nosso coração. Vive no céu”. O Madeiro nasceu e continuou gestos ancestrais, convocações que as palavras reforçam de um rumor antigo que atravessou gerações. Mais do que uma fogueira, é um chamamento, um renascer num tempo em que o silêncio das comunidades rurais se tem adensado. No crepitar, reconhecemos a persistência de um território que, mesmo esvaziado, insiste em falar. Com o Madeiro ergue-se um som discreto e profundo: o das comunidades que resistem numa interioridade envelhecida. Preparado com a paciência dos cerimoniais antigos, ele funciona como sinal e convite a reconsiderar as geografias afetivas, devolvendo presença às ausências, reunindo os que ficaram, os que regressam e até os que partiram. O Madeiro torna-se, então, mais do que tradição, um eixo que recentra a vida comunitária, restitui tempo e reabre o diálogo entre humano e a paisagem. A preparação, a partilha, a vigília, o riso, a nostalgia, tudo compõe uma respiração coletiva, devolvendo sentido onde o despovoamento frequentemente instala o vazio. O Madeiro conjuga num mesmo foco uma manta de matérias e de sonhos. Nutre-se das gentes que carregam os troncos, da juventude que se reúne, dos mais velhos que guardam as recordações...
Mas alimenta-se, também, do que imaginamos: aldeias onde o quotidiano convive com o sagrado, onde o fogo é ponto de reunião e o inverno deixa de ser apenas estação, tornando-se horizonte de celebração. A surpresa do Madeiro está em vê-lo acontecer. Em lugares antes silenciosos, renascem encontros, iniciativas, conversas que reacendem vínculos e a ritualidade transforma-se em forma de habitar em contiguidade com a terra. O silêncio volta a ser fértil. A força simbólica do Madeiro lembra que a vida precisa de ritmos, de pertenças e de memória para se sustentar; que talvez o essencial não seja apenas preservar o rito nem regressar definitivamente ao campo. O movimento é interior e transversal: reconhecer que o território não é cenário, mas corpo vivo; que as tradições não são folclore, mas arquivos de sentido. Quando o Madeiro arde, a comunidade recorda-se de si. E, ao escutar esse fogo, a sua força, o seu abraço, reinventamos o nosso próprio modo de estar no Mundo. Quando a última brasa se apaga e a terra torna ao seu silêncio, permanece em nós um vestígio desse diálogo: um tremor subtil, um eco que nos lembra que arder, perceber e compreender são processos inseparáveis. É neste lugar construído pelo fogo, pela terra, e pela resistência de uma identidade, que o invisível roça o visível e que o sentido profundo das coisas se volta a revelar. O Madeiro é uma chama enraizada na própria era do fogo em que vivemos, e podemos recorrer à classificação vivencial proposta por Stephen Pyne: o Piroceno. Como o próprio autor afirma: «Somos criaturas do fogo, num planeta feito de fogo». Na nossa evolução, aprendemos a dominar as chamas para obter energia, e desse posse nasceram máquinas, que facilitaram a nossa existência. Hoje, a vida arde: o fogo pouco aquece, transforma e extingue. Mas é sempre o homem quem desencadeia a faúlha do deserto. Mas no fogo do Madeiro renasce um centro invisível, e as terras respiram como se aprendessem, de novo, a viver.
Pedro Salvado (Cocoordeandor do projeto Madeiro - Fólios de Poesia)