João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTA SEMANA, nesta edição da Gazeta do Interior, quase coincidem o dia de Carnaval e o Dia dos Namorados. No primeiro, é pressuposto morar a alegria extrovertida, diversão e desinibição. Este ano, num Portugal traumatizado pela tragédia originada pela sucessão de tempestades destrutivas, houve muitas autarquias que decidiram suspender ou adiar os desfiles/festejos carnavalescos. Isso não impediu que fosse festejado em pequenas comunidades, aldeias ou bairros. Com a vantagem de estes festejos por norma estarem bem mais próximos do nosso entrudo tradicional, sem grandes custos de produção e muito participado.
E, mesmo em tempos traumáticos, não se dispensou o hino ao amor e ao consumo, o Dia dos Namorados, dia em que é pressuposto viver a felicidade, a alegria que rejuvenesce, enche o coração e dá um brilho especial aos olhos e à pele, um dia onde mora o futuro. Se o Carnaval dura três dias, o namoro há de durar muito mais, mesmo que não seja para toda a vida. Citando Inês Meneses (Máquina de Escrever Sentimentos, Contraponto) “o amor é benigno quando é mesmo amor.” E quando o amor não o é, então não é benigno e não tem futuro, pode significar opressão e violência, física e psicológica.
Um problema que já afetou, de forma pontual ou continuada, tantos jovens e menos jovens: uns espantosos 53 por cento dos estudantes do ensino superior que participaram no Estudo Nacional da Violência no Namoro em Contexto Universitário, relativo a 2020 e 2021, afirmam já ter sido sujeitos a pelo menos um ato de violência no namoro. E refiro este estudo porque haverá ainda a ideia socialmente preconceituosa de que o fenómeno acontece principalmente em meios sociais de menor escolaridade e economicamente desfavorecidos. Os dados mais recentes sobre violência no namoro em Portugal, publicados em fevereiro de 2026, revelam um cenário preocupante, com um aumento tanto na vitimação como na aceitação de comportamentos abusivos entre os jovens. Muitos não identificam como violência atos como “proibir de vestir determinada roupa” ou “controlar as redes sociais/telemóvel”.
Quero acreditar que uma educação dos sentimentos, na Família e na Escola, pode ajudar a que o namoro seja bem mais que a celebração do Dia dos Namorados, oportunidade para fazer vender muita coisa, chocolates e flores em particular. Importante é que seja um sentimento, mesmo que passageiro, que nos traga felicidade, vivida no momento ou para a vida, porque a relação amorosa, além de contribuir para o crescimento emocional dos jovens, para o bem estar pessoal, é também contributo importante para a coesão da comunidade.
E é assim que deve ser visto. Como uma componente da essência humana, vivida no momento e sem drama (o que não invalida a presença da tristeza). Termino com as palavras de Inês Meneses, “o amor acaba quando vem para jantar e não foi convidado. Talvez o amor acabe quando as palavras já não nos encontram.” Divirtam-se, amando-se.