Maria de Lurdes Gouveia Barata
AS TEMPESTADES
Chamaram-lhe comboio de tempestades e a metáfora está certa: acrescento comboio de tempestades com muitas carruagens. Começo por referir, a partir de 22 de Janeiro (se não me engano), a depressão Ingrid, até à que chega amanhã, a Nils, deixando para trás as carruagens da Joseph, da Kristin, da Leonardo e da Marta. A Kristin foi a que mais molestou Portugal: fúria de ventos, intensidade de chuvas e grande agitação marítima, que se têm mantido, embora a brutalidade do vento fosse a marca deixada pela Kristin, afectando com maior impacto Leiria, que lhe serviu de porta de entrada, e grande parte da região centro, em que se incluiu Castelo Branco. Sabemos por ver ou viver, uns mais do que outros. Mas confrange pensar ainda nos que estão sem água, sem electricidade, sem comunicações. Telhados e casas destruídas, árvores arrancadas pela raiz, algumas centenárias, outras inclinadas que não chegaram a cair e parecem poupadas por uma súplica insistente ao céu que os braços dos seus ramos parecem exprimir. Eis a Natureza numa reivindicação ao ataque a que o ser humano se atreveu. Cada um respondeu à dimensão do sofrimento com lágrimas, com palavras revoltadas face aos atrasos no socorro. Foi demasiado grande o cenário de destruição e dor. Seguiram-se as inundações que transformaram quilómetros de campos de cultivo em lagos, fosse pela chuva intensa, fosse pelo transbordar dos rios, afastando moradores, muitos evacuados, deixando casas e bens à disposição do poder destrutivo das águas.
A possibilidade de se repetir é grande, as alterações climáticas apresentam provas, como ouvi a alguém: o apocalipse climático está em curso. Mas é espantoso ter lido algures que as alterações climáticas nada têm a ver com isto. Acredito, na verdade, naqueles que previram há muito que as alterações do clima iriam verificar-se na intensidade e na frequência dos fenómenos meteorológicos. Os que acreditam no saber científico, como eu, começam a sentir o medo da irreversibilidade.
Eu sinto o medo das tempestades, especialmente do vento e das trovoadas, como já disse noutras crónicas, e, quando ouço maus prognósticos meteorológicos, logo recordo versos de «A Tempestade» de Alexandre Herculano (que já referi num outro artigo) e os da Tempestade de Os Lusíadas na altura do Episódio do Adamastor (Canto V). É nesses prognósticos que ouço os dois últimos versos da estância 37: «Hua nuvem que os ares escurece, / Sobre nossas cabeças aparece.»
No entanto, confirmados os efeitos destrutivos, assistimos à teimosia humana da recuperação e à força gregária da entreajuda. Paralelamente, verificou-se também o pior dos seres humanos, aproveitando a situação de caos para roubar geradores e materiais de fábricas parcialmente a céu aberto ou de portas derrubadas. A insensibilidade e a negação de valores presentificam-se pela falta de carácter que arrasta ganâncias egoístas ou falta de respeito pelo outro, censurável, mesmo considerando tempos de desespero. Todavia, preservemos as imagens de militares com ovelhas aos ombros em operação de salvamento, para dar exemplo. As mortes anunciadas doem no coração de todos. Alguns morreram de queda ao consertarem os próprios telhados, outros em prol do bem comum como o bombeiro de Campo Maior de 46 anos, que estava numa operação de socorro a famílias isoladas devido às cheias provocadas pela depressão Marta. Tentou atravessar uma área alagada e caiu numa zona mais profunda do rio Caia, ficando submerso, não conseguindo sobreviver. Um trabalhador da E-Redes morreu electrocutado a reparar a rede eléctrica na região de Leiria. São exemplos dos que trabalham para o bem comum com risco das próprias vidas.
Também nos aparecem as tempestades solares, quando o Sol passa por uma série de erupções e podem gerar uma tempestade que atinja a Terra no seu campo magnético, resultando em auroras boreais. Nos finais de Janeiro foram visíveis em Portugal e tive pena de não ter assistido a esse espectáculo de cor e beleza.
Uma vez que entrei no tema TEMPESTADE, quero acrescentar, numa linha metafórica, a Tempestade Donald Trump. A designação não é minha, mas do título do artigo do Editor-executivo, Pedro Araújo, do Jornal de Notícias, quando em Janeiro de 2025 Trump tomou posse. Começa esse artigo com uma interrogação: «A tomada de posse de Donald Trump indicia uma era tempestuosa, dentro e fora dos EUA?». Todos podemos responder pelo já observado: tempestade financeira em que o Trump Demente lançou o mundo e a tempestade das guerras com que ele ia acabar, a da Rússia e Ucrânia seria em 24 horas e estamos num presente de que já se duvida qual será o lado de Trump – o da Rússia ou o da Ucrânia? Não me atrevo a responder para não atrair desgraça. A guerra Israel-Hamas está longe de chegar ao fim. Os primeiros ventos de tempestade começaram com anúncios de ditador: o Golfo do México passaria a chamar- -se Golfo da América; o Canadá gostaria (!) de se tornar um dos estados dos EUA; exigia ter a Groenlândia, podia comprar ou seria a mal; entrou no estado soberano da Venezuela e raptou o Presidente Maduro; prepara-se para um ataque ao Irão, se não lhe agradarem os acordos. Dei alguns exemplos para deduzir que Trump é um fazedor de tempestades. Apoia-se na força, na desinformação despudorada e na chantagem com o descaramento de sem-vergonha.
Testemunhamos um comboio de tempestades com que nos confrontamos, sejam as tempestades meteorológicas, sejam as dos seres humanos que habitam o planeta, sujeitos à força e ganância dos poderosos, que os conflitos, a desigualdade e a crueldade manifestam. Desesperante, não é? Porém, e por motivo de sobrevivência de vida e de um sorriso, teimo que a esperança é a última a morrer. Por isso, colho as palavras do poeta Miguel Torga (Diário X, Miramar, 19 de Agosto de 1967):
ESPERANÇA
Quero que sejas
A última palavra
Da minha boca.
A mortalha de sol
Que me cubra e resuma.
Mas como à despedida só há bruma
No entendimento,
E o próprio alento
Atraiçoa a vontade,
Grito agora o teu nome aos quatro ventos.
Juro-te, enquanto posso, lealdade
Por toda a vida e em todos os momentos.