Edição nº 1934 - 18 de fevereiro de 2026

Lopes Marcelo
O EFEITO DE TÚNEL

A centralidade e a relevância de uma autoestrada no desenvolvimento do território que atravessa é inquestionável. No nosso caso da Beira Interior, território de baixa densidade de actividades produtivas, sem capacidade para aqui fixar os seus naturais e implicando um contínuo e progressivo despovoamento, maior é ainda a importância.
De facto, a mais rápida e mais cómoda acessibilidade à região e, desta aos restantes centros, representa uma vantagem social e económica importante, num tempo e numa economia em que a rede viária constitui as artérias por onde circulam grande parte dos fluxos de pessoas, mercadorias e produtos. Contudo, mesmo na recente situação em que se voltou à isenção de portagens, destacando-se a notável, decidida e resistente intervenção da plataforma cívica pela reposição das SCUTs, não é automático, nem significativo o desejável efeito autoestrada na região. É que, aumentando a mobilidade do exterior para a região; também a região, os seus recursos, ficam mais expostos à atração exercida por outros centros mais desenvolvidos, acentuando-se o estrutural desequilíbrio assimétrico em desvantagem acumulada há várias décadas para as terras do interior.
Um dos factores que condiciona as vantagens é o designado efeito de túnel. De facto, circular-se mais rapidamente, encurta as distâncias, envolve paragens técnicas e rápidas nas áreas de serviço e a seguir viagem até ao destino, sem se dar conta, sem se conhecerem as paisagens dos territórios envolventes nem as terras próximas, a sua história, a sua identidade, recursos e valores patrimoniais. Assim, corre-se o risco de uma autoestrada poder ser apenas uma coluna vertebral moderna desligada do território desvertebrado, cada vez mais despovoado e em processo de desertificação, de onde se quer sair e, agora, com a ajuda da própria autoestrada. Se nada se fizer, enquanto não existirem políticas públicas voluntaristas que assumam o desafio e a estratégia de a autoestrada se constituir num agente de desenvolvimento local e regional, pouco ou nada resulta, como tem sido evidente nas últimas duas décadas na nossa região.
Uma das principais linhas de intervenção teria que contrariar o efeito de túnel, criando condições de atração nas áreas de serviço ou, seja transformando-as em verdadeiras portas de entrada na região. Impõe-se a abertura de postos de informação nas áreas de serviço que assegurem a divulgação dos produtos, do património, das actividades e eventos locais e regionais; através de folhetos, mapas e roteiros, disponibilizados em quiosque de atendimento directo ou em quiosques virtuais que permitam a informação e promovam acolhimento à visita dos territórios envolvente, designadamente às terras, à gastronomia, aos monumentos e às festividades locais e regionais.
Portas de entrada e de acolhimento em espaço característico da região, quer nos materiais típicos do edifício quer na decoração interior, onde funcionasse um núcleo de animação cultural, com mostra de produtos típicos, artesanato e serviços de oferta turística ligados à história, às especialidades locais, à gastronomia, informando sobre a rede concreta das hipóteses de acolhimento e programas de actividades de lazer.
Não faz sentido que os serviços disponibilizados nas áreas de paragem nas autoestradas sejam praticamente iguais em todo o lado, virando as costas às características do território envolvente. Há necessidade de alteração dos contratos de concessão, permitindo incluir uma frente de presença, divulgação e interacção com os territórios envolventes.
Transformar a A23 num agente dinâmico de desenvolvimento local e regional devia constituir um desígnio, um projecto, que interpelasse os nossos autarcas, os nossos representantes políticos e mobilizasse os empresários – todos são indispensáveis na acção empenhada por uma estratégia de desenvolvimento local e regional.

18/02/2026
 

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