Elsa Ligeiro
DE AGOSTINHO DA SILVA A FRANCISCO DE ASSIS
Agostinho da Silva nasceu em 1906, há 120 anos, e marcou com a sua inteligência e uma cultura extraordinária o século vinte em Portugal e no Brasil.
Nasceu no Porto, e quem o descreve bem é o escritor Ruben A., um inovador escritor, nascido em 1920, que o teve como mestre.
Ruben A., na sua autobiografia “O Mundo à Minha Procura” escreve: “O Agostinho da Silva foi o homem mais culto, mais lido, com uma sólida base de grego e latim, que da conversa fazia um permanente diálogo. O obscuro e o nebuloso – tão bem explicado pelos meus professores de liceu -, encontrava nele um filtro de transparência, cuja contribuição para a clareza se tornava um verdadeiro dom, sobretudo num país de gente complicada”, informa Ruben A., para justificar a influência de Agostinho da Silva na sua vida de burguês com direito a explicações do mestre: “Trazia livros, não nos obrigava a comprar nada, a Filosofia, a História, a Literatura, a Arte tinham um denominador comum – o Homem”.
Mas o que mais surpreendeu o jovem Ruben A. foi a vida que Agostinho da Silva levava: “Ele deitava-se às nove da noite e levantava-se das duas e meia para as três. Trabalhava depois, de corrida, até às oito-nove da manhã. A seguir dava explicações como quem fabrica salsichas… Que fenómeno este tipo, quando fresco como uma alface – e ele era vegetariano – aparecia ao fim da tarde para nos ler Horácio, César, Tito Lívio, Virgílio… ele lia aquilo e traduzia diretamente do latim… Depois contava histórias e explicava-me a razão pela qual tinha abandonado o ensino no liceu de Aveiro. Recusou-se a assinar a declaração anticomunista necessária para o desempenho das suas funções públicas. Dizia ele que, de facto, não era comunista, nunca fora, mas não sabia se algum dia o viria a ser, não podia, portanto, na sua consciência, assumir uma jura para um juízo futuro.”
Com mestres-explicadores assim, entende-se o espírito de liberdade e de criatividade do futuro homem de artes e letras que foi Ruben A.
Voltaremos ao escritor um dia destes, mas hoje a crónica é sobre Agostinho da Silva, que conheci melhor através do encontro, em Coimbra, com Bruno Cortesão, filho mais novo de Agostinho da Silva; nascido no Brasil, mas com uma diáspora (até escolar) por causa das posições sociopolíticas do pai, que não suportava viver em ditaduras, como a do Brasil, onde o Bruno nasceu como, aliás, o seu sotaque ainda hoje não deixa dúvidas.
Este encontro devo-o mais uma vez a Sophia e a outros poetas que eu tentava divulgar na relva do Parque Verde, em Coimbra, junto ao quiosque (vamos chamar-lhe quiosque para simplificar) Ler ao Cubo.
A sessão informal destinava-se a um pequeno grupo, mas acolhia todos os interessados que passeassem pelo Parque Verde, junto ao Mondego.
Bruno Cortesão passeava e juntou-se a nós, participando ativamente na Conversa e nas Leituras.
No final, e porque os amigos se reconhecem pela alegria com que partilham o saber, fomos os dois tomar um café para selar o encontro feliz. E é numa pastelaria (que, entretanto, encerrou) que ele me conta que é o caçula de Agostinho da Silva.
Da minha boa relação (sempre feliz) com o Bruno Cortesão que continuo a manter pelas redes sociais, nasceu também uma admiração extraordinária pela segunda esposa de Agostinho da Silva: Judith Cortesão, uma mulher notável, com uma carreira no Brasil na área da ecologia e da genética que poucos conhecem em Portugal. (Está na minha agenda de trabalho uma sessão dedicada à vida e obra de Judith Cortesão).
Hoje é sobre Agostinho da Silva que nasceu há 120 anos, alguns séculos depois de Francisco de Assis, que biografou; e de quem estou a reler um livro, de 1944, numa edição da Ulmeiro, de 1994; em que num estilo muito próprio Agostinho da Silva conta a vida do criador da Ordem dos Franciscanos, uma inspiração de despojamento e um desafio ao regresso às comunidades primitivas que o cristianismo fomentou e que nunca devia ter abandonado.
Em 2026, no mês de outubro, assinala-se o falecimento de Francisco de Assis (1226); e gostava de convidar os interessados no concelho de Castelo Branco a colaborarem comigo na organização de um encontro ecuménico para pensarmos, em conjunto, o Mundo; à luz dessas comunidades primitivas de cristãos que inspiraram fortemente Francisco de Assis; e que continuam a inspirar pelo mundo fora quem se dedica a ajudar o próximo sem olhar à sua condição ou origem.
Um bom projeto para uma celebração do humanismo, que em Agostinho da Silva e muitos outros se transformou em causa, através de uma consciência social que continua dedicada ao acolhimento e à ajuda aos mais frágeis.