José Dias Pires
SENTIR É BEM MELHOR QUE VER
Cada vez mais, sentimos menos, julgando que vemos muito.
No meu bairro havia um velho cego que tocava realejo e sabia de memória quase todas as canções da moda, assim como os nomes de todos nós, que conseguia identificar por um “bom dia” ou pelo ruído do nosso andar.
Era uma figura imponente, no tamanho e na forma: muito alto e magro, o cabelo quase rapado e de um grisalho antigo, parecia um reflexo da sua roupa: impecavelmente arrumada e branca como a cal mais pura, encimava umas botas de verniz com o mesmo tom da ausência da cor dos seus dias.
Era eu pequeno quando acompanhei uma tertúlia informal com dois vizinhos nossos.
«Tens memória de elefante», disse um deles, para o provocar.
«Talvez seja ajudado pela vossa incapacidade de mudar de passo e de disfarçar a voz. Não preciso de vos tocar, para vos saber. Conheço o desenho das vossas caras bem melhor que o desenho da minha, e sabeis porquê? Porque é mais fácil descobrir o embrulho que o seu recheio. Como me interesso bem mais pelo interior que pelo invólucro, conheço-me perfeitamente por dentro e desconheço-me por fora, também pouco me interesso em saber como me vedes», respondeu. «Mas para quê gastar a minha saliva com palavras que, por certo, mal compreendeis?»
E seguiu. Tentei acompanhar-lhe a sombra para me aproximar o mais possível sem que desse por mim.
«Vens aí, rapaz?»
«Acho que sim.»
«Nunca aches. Achar é duvidar, e duvidar nem sempre é existir. Opta pela razão direta: sim ou não. Já o fiz há muito porque fui roubado à nascença, e sabes?, ainda bem, ganhei tantas coisas em troca…»
«E roubaram-lhe o quê?»
«Roubaram-me a tua luz, mas ganhei a minha que é muito mais brilhante e variada que a tua. Sabes, quem parte da ausência, como eu, tudo o que ganha, por mais pequeno que pareça, é de um valor incalculável.»
«Não o percebo.»
«Sei bem que não e desejo que nunca o percebas da forma que eu o fiz. Tenta aprender a fechar os olhos e a olhar para dentro. Pode ser que um dia…»
«Mas isso é impossível!»
«Será ou não. Quem sabe? Vá, vem lá daí.»
Caminhámos alguns minutos em silêncio, até que ele me perguntou.
«Não és curioso, rapaz?»
«Sou.»
«Não parece. Vieste atrás de mim, cheguei-te para o meu lado e afinal…»
«Tenho receio.»
«Tens medo de mim?»
«Não. Tenho receio que fique zangado comigo.»
«E porque havia de ficar?»
«Por causa do que lhe quero perguntar.»
«Pergunta, que eu prometo reagir bem, mesmo que não goste.»
E perguntei, depois de engolir em seco a minha indecisão.
«Ficaria contente se tivesse olhos?»
«Mas eu tenho olhos, rapaz. Os únicos buracos na minha cara são os da boca, nariz e ouvidos.»
«Mas não vê!»
«Não vejo o que tu vês com os teus, vejo diferente.»
«Sim, sim», titubeei, na minha ignorância, «mas gostava de ver, imagino.»
Sorriu e ficou em silêncio por uns bons minutos. De súbito, parou, tocou-me no ombro e disse:
«Sabes, habituei-me desde sempre a ver com todos os sentidos menos o da visão, em especial com as minhas mãos e os meus ouvidos. Por isso, preferiria ter braços telescópicos para chegar com as mãos mais longe e mais alto e orelhas de morcego para poder ouvir até o barulho dos fios das teias de aranha agitadas pela brisa da noite.»
«Mas isso não é ver.»
«Não, não é. É sentir, que é bem melhor, pelo menos para mim que nunca vejo o que me rodeia como tu vês. Vejo diferente, entendes?»
«Não.»
«Mas eu explico. O meu olfato antecipa a chuva porque sente o cheiro da terra molhada, quando tu apenas percebes as nuvens que se avizinham ao longe. Os meus ouvidos adivinham, apesar da claridade, que a noite se prepara para suceder ao dia, ao escutar o pipilar das aves que regressam a casa, quando para ti ainda é apenas o final de uma tarde luminosa. Distingo, através dos poros, se estou na sombra ou atravesso um lugar ensolarado. Os meus dedos adivinham as formas, quando tu as reconheces pela imagem. Distingo o gume das facas pelo equilíbrio da pega. Não necessito de relógio para avaliar com a maior precisão a duração do tempo, pois consigo fazê-lo através da conjunção das ações e dos pensamentos com as palavras que as acompanham.»
«E nunca teve ninguém que olhasse por si?»
«Que cuidasse de mim?»
«Não, que visse por si.»
«Sim, os meus pais. Mas depois cresci e andei por mim. Fiz-me ao mundo.»
Pelo suspiro que acompanhou a minha expressão de incompreensão, sentiu-se na obrigação de tornar-se mais claro.
«Saí de casa e obriguei-me a viver e a ver com a minha cegueira.»
«A sentir, não é?»
«Isso mesmo.»
«E viveu sempre sozinho?»
«Não. Vivo só, mas não sozinho.»
Ficou por aqui a conversa. Calados continuámos lado a lado até que o meu interlocutor, alargando a passada, me deixou, sozinho.
Cada vez mais, sentimos menos, julgando que vemos muito.