Edição nº 1944 - 29 de abril de 2026

José Dias Pires
CONTRA A MENSAGEM DOS CONFORMADOS

A praça abarrotava de gente que, por necessidade, medo ou devoção se preparava para ouvir a anual Mensagem da Confraria dos Conformados, com a qual se abria o ano novo.
Levado pela sua coruja a quem chamava Liberdade, Júlio Novo, o cego, chegou-se às escadas do palanque e subiu. Um ruído suspenso pairou sobre a praça.
“Hoje digo eu a Mensagem dos Conformados. É-me devido esse direito, pois deste palanque partiu o foguete que ditou a minha conformação.”
Um ramalhar contraditório crescia naquele mar de gente. Como uma onda que vem e retorna sem quebrar, assim eram os apoios e as reprovações: sussurradas e conformadas.
“Hoje digo eu a Mensagem dos Conformados, porque não me quero arrepender quando, no fim, o deixar de ser. Descobri, nas últimas filas, a pessoa que um dia estará onde agora me encontro. Nesse dia ouviremos, finalmente, a Mensagem dos Obstinados. Passei por ela, é ainda uma criança para quem tudo o que aqui acontece representa, simultaneamente, novidade, deslumbramento e dúvida. E senti-a. Ouvi o seu pestanejar tranquilo e aproximei-me para passar junto a ela: tinha o aroma das manhãs renovadoras. Toquei-lhe levemente na cabeça e perguntei: “Posso?” “Sim”, disse ela, e chegou-se para o lado para que passasse. Saboreei, com a ponta da minha língua a espreitar entre os lábios, as palavras que dirigiu ao seu avô: “Isto é tudo teatro, não é avô?”. Sei que ambos sorriram: fui acariciado por aquela brisa que se desprende de nós quando sorrimos. E eu sorri também sem esforço, algo que não me acontecia há muito tempo.
Daí, a minha certeza: ela acabará um dia com o roubo mais que perfeito, porque muitos o consideram dádiva, e que tem nascido todos os anos com a Mensagem da Confraria dos Conformados.
Sei que metade do que digo vos passa ao lado. Pensais: “afinal o cego fala bem” e, conformados, ficais satisfeitos. Outros que me percebam, não é? Mas esses também aqui estão e, se falo para todos, é a eles que desejo atingir em primeiro lugar.
Como sempre, sobre vários pares de coisas se falaria hoje aqui, ambas aparentemente certas, mas, afinal, tristes e amedrontadoras: a luz e a escuridão; o dia e a noite; a verdade e a mentira; o presente e o futuro; a obstinação e o conformismo.
Haverá quem melhor que eu as desmonte peça a peça, letra a letra, mas é meu dever começar já a fazê-lo.
Vivo a luz do que presumo e a escuridão que me veste; sou, em permanência, o dia e a noite; imagino como verdade o que pode ser mentira e o contrário, se o meu corpo se torna mandrião; temo o presente e desejo o futuro porque acredito que o que está para vir será, se o quisermos, sempre melhor que aquilo que temos; e, cada vez mais, amo a obstinação e os obstinados que se afirmam em palavras e atitudes absolutamente contrárias ao conformismo sem cheiro, sem volume e sem cor.
Eu sou o que sou e vivo bem com esta realidade. Contudo, deixei de estar conformado e comecei a ouvir, a sentir, a saborear e a cheirar: a minha forma de ver.
E como quero ouvir, sentir, saborear e cheirar cada vez melhor, passei a ser quase obstinado sem querer ser senhor deste nosso universo limitado nem escravo de mim mesmo; não quero a solidão nem a nudez do conformismo; desejo a companhia da tentação, da virtude, do suor, do cansaço e do descanso e de todas as contradições que passam ao lado dos conformados; quero distinguir os fortes dos fracos, a beleza da fealdade, a liberdade dos grilhões, a sabedoria da ignorância e o conformismo da obstinação.
E desejo tudo isto porque não quero arrepender-me de exigir um ano multicolor que se oponha ao cinzentismo que a tradição das palavras sempre iguais, banais e repetidas, nos oferecem.
Fui condenado a conformar-me com a escuridão, mas não o fiz: consegui descobrir como chegar à luminosidade do que me rodeia.
Fui empurrado para a solidão das palavras ditas, que só pertencem a quem as diz, mas não caí: encontrei forma e meio de lhes dar vida no papel, para que deixem de ser apenas minhas.
Vós sois o que sois e não sei como conseguis viver com o que vos rodeia. Arrependidos, poucos; conformados, muitos; obstinados, apenas um — que há-de ser.
Era bom, mas sei que é impossível, que todos nos preparássemos para lhe fazer companhia e acabar com esta exaustão conformada que é o desconsolo irremediável e desesperante que nos manda aceitar que a corrente nos leve sem procurar saber onde nos entrega: na lâmina aguçada de uma faca? No fogo incandescente de um fogão? Na armadilha de um lancil? Na piedade fingida pelo “coitado do ceguinho”?
Sou o que sou: um cego que vê e que já abandonou o conformismo.
Lamento que continueis a ser o que sois: videntes que nada veem, enredados na poeira das vidas conformadas.”
Na praça arrepiada, o silêncio venceu os aplausos, o espanto e a incompreensão emudeceram os protestos. No palanque, os sorrisos entreolhados eram amarelos, translúcidos: deixavam adivinhar os ossos e os dentes das mandíbulas dos conformadores.

29/04/2026
 

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