Patrícia Bernardo
INFLUENCERS: OS NOVOS EDUCADORES DA GERAÇÃO DIGITAL ???
“Para além do entretenimento: como os influencers moldam escolhas e valores dos jovens…”
Durante muito tempo, a televisão, a escola, as famílias ocuparam o centro da formação social e cultural dos jovens. Hoje, esse lugar é partilhado e, em muitos casos, disputado por uma nova geração de figuras públicas: os influencers digitais. Presentes, diariamente, nas redes sociais, estes criadores de conteúdos tornaram-se referências próximas, acessíveis e, sobretudo, altamente persuasivas.
Ao contrário das celebridades tradicionais, os influencers constroem a sua notoriedade com base numa aparente proximidade. A adolescência é, por natureza, uma fase de construção identitária. É o tempo das perguntas “quem sou?”, “como quero ser visto?” e também da procura de pertença. Neste contexto, os influencers oferecem respostas rápidas e, aparentemente, próximas. Mostram rotinas, opiniões, conquistas e fragilidades, criando uma sensação de intimidade que favorece a identificação. Para muitos jovens, estas figuras funcionam como espelhos e, simultaneamente, como guias. Falam, diretamente, para a câmara, criando a sensação de uma relação quase pessoal com os seguidores. Para muitos jovens, esta ligação traduz-se em confiança e é, precisamente, essa confiança que amplifica o seu poder de influência.
As escolhas de consumo são um dos domínios mais evidentes. Produtos de beleza, vestuário, alimentação ou tecnologia ganham popularidade após serem promovidos online. No entanto, o impacto vai muito além das decisões de compra.
Os influencers participam, de forma mais ou menos explícita, na construção de valores, atitudes e expectativas. A forma como abordam temas como sucesso, corpo, relacionamentos ou estilo de vida contribui para a definição de padrões que os jovens tendem a internalizar.
Esta influência pode ter efeitos positivos. Muitos criadores promovem estilos de vida saudáveis, incentivam a expressão individual, abordam questões de saúde mental ou dão visibilidade a causas sociais. Para jovens que se sentem isolados, estas vozes podem representar identificação, apoio e até orientação.
Contudo, há também riscos que não podem ser ignorados. A exposição constante a vidas aparentemente perfeitas pode alimentar sentimentos de inadequação, comparação e baixa autoestima. A linha entre conteúdo genuíno e publicidade nem sempre é clara, o que pode dificultar uma leitura crítica por parte de públicos mais jovens. Além disso, a valorização excessiva da imagem, do consumo e da validação externa, frequentemente, medida em “likes” pode interferir na construção de uma identidade mais autónoma e sólida.
Perante este cenário, a questão não é eliminar a presença dos influencers, mas compreender o seu papel e promover uma relação mais consciente com os conteúdos digitais. Pais, escolas e profissionais têm aqui um desafio crescente: mais do que proibir ou desvalorizar é preciso desenvolver nos jovens competências de literacia mediática/digital que lhes permitam questionar, interpretar e filtrar a informação que consomem. Desenvolver pensamento crítico torna-se uma ferramenta de proteção e de crescimento.
Os influencers fazem parte da realidade atual e continuarão a marcar presença na vida dos jovens. A questão central não é eliminá-los, mas compreender o seu impacto e preparar as novas gerações para uma relação mais consciente, equilibrada e informada com o mundo digital.
(Psicóloga Clínica e Judicial)