Edição nº 1947 - 20 de maio de 2026

João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...

ESTIVE HÁ POUCOS DIAS num evento cultural em Lisboa, o lançamento do livro de José Manel Castanheira, meu amigo de longa data. Aconteceu num espaço que já conhecia de há muitos anos e que agora revisitei, por mais de uma razão com muito prazer. A Cinemateca Nacional tem resistido às mudanças na zona nobre da capital e que qualquer um reconhece. Aliás, está agora melhor, com mais valências, soube adaptar-se aos novos tempos. Pode-se assistir a um grande clássico do cinema e aproveitar para jantar bem a um preço justo no restaurante 39 Degraus (um piscar de olho cinéfilo) ou, se o tempo o permitir, preguiçar no terraço numa agradável esplanada. E na livraria Linha de Sombra dar uma vista de olhos pelo bom acervo de livros de cinema e fotografia, entre muitos outros de fundo de catálogo.
Mas as grandes cidades como Lisboa e Porto, vão perdendo a sua identidade e isso é mau para todos, sejam ou não residentes, incluindo os turistas mais exigentes. É o resultado da gentrificação um processo de transformação urbana que afeta especialmente os centros históricos que pela forte pressão turística sofrem uma forte valorização imobiliária. Isso atrai novos residentes, mais abonados, mas expulsa os moradores originais e o comércio tradicional, que não conseguem mais pagar o brutal aumento das rendas. E é isso que os obriga a afastarem-se para as periferias, com o centro e os bairros históricos a perderem as suas caraterísticas próprias e os cafés, leitarias, restaurantes, lojas tradicionais a não conseguirem responder aos aumentos brutais de rendas e a terem de fechar, substituídos por restaurantes de chefs e de conceito, lojas de lembranças e afins.
Em poucas semanas, fecharam no centro de Lisboa dois cafés\pastelarias que eu frequentava regularmente. Dos tais que ajudavam a criar a identidade de Lisboa. O café Camões, o nome identifica bem o local de existência, onde se sentia o pulsar da comunidade de bairro, onde os vizinhos, a maioria idosos ainda moradores do Bairro Alto e Santa Catarina, se encontravam para o pequeno almoço, se preocupavam pelo atraso ou ausência do vizinho, se punha em dia as novidades, os (des)amores, as doenças… e com doces e salgados genuinamente portugueses, nortenhos.
Mais acima, no Príncipe Real, sem o mais ligeiro sobressalto de quem devia estar atento a estas mudanças, fechou a pastelaria Cister. Um espaço de grande importância na história literária de Lisboa. Desde o século XIX tinha sido local de tertúlia de escritores, jornalistas e intelectuais de várias tendências. Poiso diário de Eça de Queiroz mais tarde foi tertúlia de Alexandre O’Neil Luís de Sttau Monteiro, e de cada sábado que reunia Augusto Abelaira, Orlando Costa, Maria Antónia Palla, Emília Brederote dos Santos e Medeiros Ferreira…
Felizmente que a pressão turística não é problema em terras da Beira. Em boa hora temos estrangeiros de tantas partes do mundo que escolheram este território de baixa densidade para viver, pela qualidade de vida e por aqui ainda encontrarem a genuinidade da gastronomia e dos costumes numa comunidade que os sabe acolher. E que os reconhece como importantes para o renascer das nossas aldeias e vilas.

20/05/2026
 

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