Maria de Lurdes Gouveia Barata
FLORES VIVAS E FLORES ESTIOLADAS
Maio instável, mas a desabrochar em flores, sendo os campos o retiro paradisíaco para os sentidos, sobretudo para a visão e para o olfacto. Estar no meio da Natureza acaricia a vida e, consequentemente, a saúde da mente e a do corpo. As flores campestres, quais estrelinhas amarelas, espalham-se pelos caminhos, pelas veredas, pelo sobe e desce das encostas, como um tapete tecido pela terra que acorda revigorada e em pujança de festa que o sol de Maio ilumina e fecunda. As papoilas acenam belas, frágeis e rubras da força de existir; as giestas acendem-se de luzes doiradas para homenagear o astro-rei, os rosmaninhos espigam em roxo perfumado, motivando a respiração profunda… E procuro as violetas que vicejam roxas e pequeninas e com a fragilidade que é forte na teimosia e atraem a minha predilecção. A Natureza enfeita-se para celebrar a vida eternamente renovada. A «Canção da Primavera» de José Régio, regista (4ª est.) o vigor de Maio: «Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio, / Vem com tua paixão, / Prostrar a terra em cálido desmaio!». Paixão invoca a intensidade de um sentimento que altera um modo de comportar-se e, neste caso, falamos de amor que a força da Primavera induz, lembrando um excerto de um soneto de Florbela Espanca:
É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!
(…)
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...
A Natureza feericamente primaveril impulsiona a expressão da Alegria, da Beleza e dos bons sentimentos.
Uns momentos a passear no verde vegetal entremeado de variegadas flores que nos acenam na brisa afastam por um pouco as preocupações, as que são da vida pessoal ou outras da vida colectiva, que nos torna unidos contra a guerra e contra a maldade que se expande, porque nessa vida colectiva insculpem-se todos os seres humanos, ligando-nos mesmo aos que são anónimos e vivem horrores que afligem a humanidade. O Maio das flores e da beleza não aparece nos países em conflito, com a destruição de casas e de vidas humanas. Quase se torna inacreditável que se fale de uma «terraplanagem» no sul do Líbano pela investida raivosa do criminoso de guerra Benjamin Natanyahu (uma ironia do destino: Benjamin significa «filho do lado direito» ou «filho da felicidade» e ainda «o bem-amado»). É este Benjamin que sabe manipular o demente Donald, bajulando-o continuadamente, desde recolha de assinaturas para o Nobel da Paz – pensemos apenas nas guerras que Trump já provocou! – desde uma adulação de estarem sempre em contacto para decidirem em conjunto, pois «somos amigos» («Queres perder um inimigo? Adula-o.» disse Jonathan Swift), desde a manipulação para guerrear o Irão… Já dizia Winston Churchil: «Um bajulador é aquele que alimenta um crocodilo e que espera comê-lo no final». É espantoso que Donald Trump não perceba que é manipulado, mas compreende-se, porque é o tal narcisista patológico, sendo assim um adulador de si próprio e não tendo clarividência para descobrir que é a marionete de Natanyahu e de outros, além da própria loucura, transformando-se em palhaço e não se apercebendo que já é alvo de chacota em muitos meios. Só que não dá vontade de rir deste papel ridículo porque está em causa o mundo inteiro. Muitos comentadores falam de «um comportamento errático» - e assim estamos sob ameaça cada vez mais perigosa.
Natanyahu é um criminoso de guerra: a sua crueldade e indiferença pelo ser humano levaram-no a não permitir ajuda humanitária na faixa de Gaza, privaram a população de electricidade e água potável necessária para a sobrevivência, usou a fome como arma de guerra. Também há o cinismo de Putin ao afirmar que quer a paz, quando está sobretudo nas suas mãos a concretização dessa paz, uma paz justa sem satisfazer os seus interesses imperialistas. E aí vêm as imagens de devastação na Ucrânia. Já referi três nomes que decerto ficarão como amaldiçoados na história da humanidade e muito mais haveria a dizer sobre as guerras que atormentam o mundo.
Demolições, ruínas são cenários de pó e fumo e restos de drones, tudo cinzento e desolado. Onde estão as cores de Maio? Só num pranto de saudade. Vem-me à lembrança um poema de Sophia (Livro Sexto):
PRANTO PELO DIA DE HOJE
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Outro dia passei por uma casa em ruínas, sem telhado, só paredes, portas de ferro enferrujado, um cartaz velho de acrílico com danos bastantes ainda pregado na parede que se desfazia em peles de tinta. E que observo? Uma haste de verde com uma flor amarela que irrompia com altivez da parte de trás do cartaz! Oscilava ao vento e estava alegre a falar de Maio. Havia mais gestos primaveris nos rebentos teimosos entre a parede e uma porta de ferro. E fiquei distraída nos meus pensamentos. É Maio tão colorido e tão descolorido em mundos diferentes, seguindo sempre o tempo de ser. Talvez haja rebentos entre a devastação desses lugares de guerra, a insistir no renovo pelo que a memória guarda e pelo que o futuro promete com a esperança e com a força impetuosa da vida.