João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
COMO TODOS OS ANOS, fui à Feira do Livro de Lisboa. É daqueles eventos que faz parte da vida, que me lembre, apenas faltei nos anos pandémicos. Porque mais que feira, é a festa do livro. São os quiosques de comida e bebidas, de petiscos, os gelados e as inevitáveis farturas (pretensamente gourmets). E, a toda a hora, momentos para apresentações de novos livros, conversas com os autores, reflexões literárias, música e poesia,
Não recordo de alguma vez ter levado lista de compras. Gosto de ir à feira/festa do livro com o prazer da descoberta, folhear e admirar a capa e ter aquele feeling que tantas vezes falha e nos deixa com o livro abandonado no primeiro capítulo. Tenho por hábito gastar mais tempo nas pequenas editoras e nos stands de fundo de catálogo, onde sempre há alta probabilidade de encontrar alguma pérola literária a preço muito convidativo... Agora vou sem objetivo de compra. Sei que, como no tempo da Rosel não resistia à bola de berlim que o sr. António junto com o café me punha em cima da mesa, parecendo ler os meus desejos inconfessáveis, nunca vou resistir ao piscar de olho de um livro. Mesmo tendo a a consciência do tempo que me resta. Sei que não vou conseguir ler todos os livros que fui juntando ao longo de uma vida e que continuam, empilhados, à espera de serem lidos. Por isso, entrei pela Feira adentro mais pelo prazer de passear entre livros. Com uma paragem para ouvir Pacheco Pereira e Rui Tavares, que enquanto historiadores, conversaram para uma plateia repleta de leitores curiosos, sobre dois livros que, de forma diferente, explicavam a guerra e a ascensão do fascismo e do nazismo ao poder.
Na Feira do Livro não se vive, pelo menos nunca dei conta, a imaterialidade do livro no formato digital, que muitos leitores por boas e variadas razões preferem. O livro, como produto tangível, distinto pelo tamanho, capa, cheiro e pela vida que tem lá dentro, tem tudo o que é necessário para a ligação empática com o leitor, muitas vezes uma ligação para a vida inteira. A diretora editorial da Tinta da China, Bárbara Bulhosa, sobre o futuro do livro, disse por estes dias que a edição e venda de livros até pode estar em crise (as feiras são um epifenómeno), mas acredita que num Mundo cada vez mais digitalizado, de ecrãs, scrolling e incapacidade de concentração para a leitura, o livro vai sobreviver nem que seja só para consumo de elites culturais.
Revejo-me muito no que escreveu Manuel António Pina (e que pela enésima vez repito): “Às vezes pergunto-me quem raio seria eu se, em vez dos livros que li, tivesse antes lido os que não li. Provavelmente cruzar-me-ia comigo na rua e não me reconheceria”. É isto, o livro também contribui para a construção do nosso caráter e para a nossa forma de estar e participar no Mundo. E não só. Um estudo realizado pelo psiquiatra e neurocientista americano David Lewis, mostrou que apenas seis minutos de leitura por dia podem reduzir os níveis de stress em 60%, diminuindo o ritmo cardíaco, aliviando a tensão muscular e alterando o estado de espírito. E que a leitura previne o Alzheimer: o que importa é ler, ler amiúde, ler quotidianamente. Pois então, caros leitores da Gazeta, que se leia. Pela nossa saúde, física, mental e cívica.