Joaquim Bispo
O GATO NEGACIONISTA
A primeira apetência que Pixie sentiu, ao chegar à casa de província dos donos, foi visitar o seu amigo Nico e ficar de conversa em cima de um telhado. Para esquecer a humilhação de mais de duas horas de viagem, fechado na sua caixa, aos pés do pendura, no caso, a cadela da família.
Antes de mais, no entanto, havia que avaliar se a casa teria sido visitada por roedores. Inspecionou primeiro o rés-do-chão. Tirando um ligeiro cheiro a mofo na despensa, estava tudo bem. Subiu a escada e vistoriou os dois quartos, com especial atenção debaixo das camas. Respirou fundo. Estava tudo em ordem.
A avaliação no telheiro foi bem mais demorada. Basicamente, tinha sido visitada por pequenos pássaros, mas havia um cheiro bastante exótico. Por fim, percebeu: devia ter sido um lagarto. De repente, sentiu um desinteresse intenso. A revista estava feita, só iria visitar o amigo à noite. Até lá… Instalou-se em cima de um tronco largo, na pilha da lenha, e iniciou um tratamento lambido do pelo cinzento listado, o que ainda levou o seu tempo. Quando entendeu que já estava razoavelmente limpo, estendeu-se e dobrou as mãos para dentro. O sono não demorou.
Ao anoitecer, saltou para o muro do quintal, percorreu-o até quase ao fim, onde havia um casinhoto no quintal contíguo, desceu o pequeno telhado, saltou para o chão e avançou, atento, por entre couves e feijoeiros até um muro baixo. Novo pulo, nova caminhada, quando percebeu um vulto. Estacou. Apesar do lusco-fusco, pareceu-lhe a silhueta de um gato. Aproximou-se lenta e cautelosamente até que identificou, sem dúvidas, o seu amigo Nico, um escorreito gato amarelo.
- Nico, grande malandro! Estás sempre na mesma.
- Então, estás cá e não dizias nada? Essa saúde?
- Fui vacinado contra a leucemia felina. Desta já me livrei.
- E deixaste? Isso é para nos fazer servis como os cães.
- Não, é por causa de uma doença grave que nos pode matar!
- Oh, meu amigo… Já estás com o discurso dos donos. Escuta, tens de comer já erva do diabo, para te fazer vomitar e eliminar a maior. Depois, róis casca de sabugueiro, para absorver o resto. Mas o tratamento só fica completo se comeres uma lagartixa verde. A vacina é atraída pelos tecidos orgânicos dos rastejantes. Talvez por detetar o seu espírito de rastejamento.
- Nico, escuta; a vacina é o que me vai proteger de uma doença terrível, não o contrário. Tu não te vais vacinar?
- Eu? Era o que me faltava! Eu sou um espírito livre e livre quero continuar a ser. Eu sou gentil e simpático, mas, quando se trata da minha saúde e da minha liberdade, não faço concessões.
- Mas, nunca levaste vacinas?
- Devo ter levado em pequeno, mas, na altura, não sabia nada das conspirações dos homens. E era uma vacina já muito ensaiada, mas essa que levaste… Tu é que vais ser a cobaia.
- Ó Nico, não digas isso. Tens alguma prova do que dizes?
- Olha, olha! O Bigodes, um gato ali da outra rua, depois de levar a vacina ficou 18 horas a dormir.
- Oh, faço isso quase todos os dias. Mas apanhou a doença?
- Não. Mas eu também não. Ouve, Pixie, eu guio-me pela tradição e pelo meu instinto. Lambo-me cuidadosamente todos os dias. Todos os vírus e bactérias que estão no pelo, enfraquecidos pela minha saliva, são decompostos no estômago e vão fortalecer o meu sistema imunitário. E depois, são vomitados na bola de pelo. Não falha. Era a prática que o meu avô, um gato robusto e altivo, usou toda a vida e nunca o vi ficar doente. Muito menos submisso ou bajulador.
A conversa ia noite dentro, até um homem atirar uma pinha:
- Raisparta os gatos. Fora daqui! Janeiro tão longe e é já este berreiro todo. Dantes não havia tanto gato.