Lopes Marcelo
O FIO DO TEMPO
Regra geral, os dias são uma sucessão de eventos ligados pelo fio expectante da pressa, de não chegar atrasado, de não se esquecer disto ou daquilo, de telefonar a A ou B, de consultar as redes sociais e endereço de email, de dar sequência ao(s) documento(s) com prazo(s)… O ansioso fio do tempo consome-se na sucessão de acontecimentos que, uma vez realizados, se esfumam num eco sem perfume e por vezes sem sentido, em que a nossa voz e a nossa vontade, quase não existiram, ou não se afirmaram. E, então, pode acontecer que esse fio da pressa se partiu, ficou a rolar em nós de forma asfixiante e tudo se nos afigura um novelo pesado e bloqueado.
Olhando para trás, pode ser difícil revermo-nos na acidentada secura do tempo que vivemos, mas que não respeitando a nossa própria voz, desejos e afectos - nos cala a voz e apaga a vontade. O tempo usou-nos, usufruiu da nossa representação no palco dos acontecimentos, no tumulto das vozes, na vertigem dos cenários e volatilidade da comunicação que nos leva a consumir informações e mensagens que não ficam ancoradas, interiorizadas, em nós.
Dessa planura do tempo vivido, mas não interiormente assumido, pouco retemos de forma essencial e durável, se não encontrarmos tempo e espaço para os pequenos gestos e atitudes de desejos e ternuras partilhados com vagar e autenticidade. Algum tempo para parar e escutar, para se escutar.
O religar do fio do tempo pressupõe a capacidade de planeamento, a distinção do que é essencial do que é acessório, exige o usufruto contemplativo do tempo já não estrada acelerada das quotidianas circunstâncias, mas, antes, saborear-se a lentidão, o silêncio; revivendo e rememorando a íntima cadência e sentido do viver.
Construir memória e ser coerente com a memória herdada que constitui a moldura inspiradora das nossas acções é a expressão dos valores de cada pessoa.
De facto, quanto ao principal património, é como diz o povo:” o mais importante e essencial é o que se herda e se transmite em vida”, sobretudo pelo exemplo que não se impõe, mas se assume e partilha de forma indelével, pessoal, familiar e, até colectivo na comunidade em que nos inserimos. É constituído pelo exemplo implícito nas nossas atitudes e acções concretas que, quer queiramos ou não, influenciam todos os que nos rodeiam, sobretudo as gerações mais novas já que vivem intensamente o seu processo formativo.
O uso contemplativo do tempo que representa maior vibração interior, maior disponibilidade para o diálogo e refexão; constitui a pauta do exercício da liberdade pessoal e cívica que também abre tempo e espaço quer, para a relação solidária com os outros, quer para a intervenção pelo bem público.