Maria de Lurdes Gouveia Barata
SOB A ONDA DE CALOR
Não é como no surf em que se cavalga a onda. É a onda de calor que cavalga os humanos e a Terra, como se desafiasse forças de resistência, já que foram os humanos que desafiaram a Natureza. Há tremuras de abafamento no ar, como se agitado por uma fúria. Correm lágrimas quentes nas frontes, decerto salgadas, mas não vêm dos olhos, estes ardem na intensidade da luz. Um torpor sobe do sangue que se tornou mais lento e arrasta a prostração do corpo que se tornou cansado. A boca seca e fica como cortiça e implora um grande copo de água, uma água pedida por todo o corpo, impaciente, como respirando febre de um ar que tira o fôlego e lança fios ténues de resistência para evitar o colapso. É um abraço intenso de calor feroz que se funde com a pele. É a onda de calor (parece ser a sexta! e escrevo na primeira semana de Julho) que nos submerge. Só me apetece dizer palavras que participam num campo semântico de Calor: combustão, canícula, escaldante, ardor, fogo, abrasamento, afogueamento, ardência. E sei que faltam outras. O Verão chega, não como a estação de férias e descanso nos dias longos, mas como a estação carregada de avisos vermelhos da Protecção Civil, aconselhando a ficar prisioneiros em casa. Castelo Branco entorpece com a irradiação quente em cada rua, em cada esquina, já dantes a cidade se destacava por extremos de temperatura, até se dizia Castelo Branco tem três estações: o Verão, o Inverno e o caminho de ferro. Hoje essa memória está a ser ultrapassada pela novidade dum extremo que é extraordinário e se vai entranhando como aceitação. O clima altera-se, altera-se a paisagem, altera-se um ambiente espácio-temporal e até as memórias se corroem…
Aqui está, especialmente enviado aos que negam ainda, ignorantemente, as consequências das alterações climáticas. Outros já deram a mão à palmatória. Nunca, como agora, se fala tanto dessas alterações. Todavia, muito se fala e há pouca acção. Os seres humanos são culpados, uns mais do que outros. Os mais responsáveis são os que têm poder, um poder que usam em prol da ganância pessoal, da matéria de negócios que os tornam mais poderosos para espalhar mais desigualdade numa maioria de biliões de habitantes deste planeta, abrangendo de seres humanos, animais e vegetais. Mais simplesmente: os culpados de um futuro planeta destruído. Alguém me dizia um dia destes: somos todos culpados. É parcialmente verdade: que importam manifestações, ter cuidado com atitudes pessoais que não firam o planeta, se a grande possibilidade de acção não está ao nosso alcance? Há aqueles que, pertencendo ao mundo dos sem poder, usam o voto de representatividade nas pessoas erradas. Trump, por exemplo, na Assembleia Geral da ONU, com toda a ignorância de que é detentor, designou as mudanças climáticas de «a maior farsa já perpetrada contra o mundo» e acusou o consenso científico de ser «feito por pessoas estúpidas». Sabemos como defende o carvão e como se regozijou pela saída do Acordo de Paris. A soberba que toca a idiotia levou-o a dizer que nascera com um dom para a ciência! E não acabaria de citar afirmações graves do Demente que tem poder sobre o mundo inteiro.
Lembrei-me de uma fábula de La Fontaine que ilustra bem a desigualdade injusta pela injustiça dum poder injusto, não deixando de citá-la (Fábulas de La Fontaine, Ed. Afrontamentos, 1970, pp.83-84):
OS DOIS TOUROS E AS RÃS (trad. João Alves das Neves)
Ferozmente, dois touros combatiam
Pela posse da novilha que ambos queriam.
Já suspirava uma rã
Adivinhando a consequência
Quando lhe pediu a irmã
A causa da incoerência.
“Pois não vês que o vencido
No charco se esconderá
Revoltado e ofendido
E que a nós esmagará?”
Assim foi. Escondido ficou
O touro, pisando as inocentes.
O mundo cresceu mas não mudou.
As faltas das grandes gentes
Sempre o pequeno as pagou.
Num breve à parte, decorrente da fábula citada, poderemos ampliar a conclusão da fragilidade do pequeno em relação a grandes gentes no que diz respeito às guerras que assolam o Médio Oriente e a Ucrânia, para falar das que mais preocupam e se publicitam.
Voltando, porém, às alterações climáticas, convém dizer que os primeiros alertas, advindos de estudos científicos, remontam ao séc. XIX, com o aviso de alteração do clima como consequência de emissões para a atmosfera de grandes quantidades de gases com efeito de estufa (GEE), por via do crescimento das actividades industriais e dos transportes. O físico inglês John Tyndall começou, em 1859, um conjunto de experiências que mostraram que as emissões de CO2 na atmosfera absorviam as radiações e o calor do sol, estabelecendo as bases experimentais para o efeito de estufa. Durante a década de 1970, a opinião científica favoreceu cada vez mais o ponto de vista do aquecimento. Na década de 1990, formou- -se uma posição de consenso: os gases de efeito de estufa estavam profundamente envolvidos na maioria das alterações climáticas e as emissões causadas pelo homem estavam a levar a um aquecimento global evidente. Desde a década de 1990 a investigação científica sobre alterações climáticas incluiu várias disciplinas e expandiu-se.
Lembro a luta de Al Gore para inverter a situação, alterando atitudes humanas. Foi vice-presidente do governo Bill Clinton (1993-2001) e candidato a presidente em 2000 pelo Partido Democrata, quando perdeu a eleição para George W. Bush, filho do ex-presidente George Bush. Que pena ter perdido! um dos mais importantes activistas do Planeta em prol da conscientização quanto aos riscos das mudanças climáticas. Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2007.
Com perseverança, muitos lutam ainda e hão-de continuar a lutar. Mas há alterações já irreversíveis. A apreensão está instalada. Mas a força da vida com o forte instinto da sobrevivência não nos deixará ir abaixo, deitando à terra sementes verdes para germinarem em esperança de tudo não ser pior. Por isso, termino com as duas últimas estâncias do poema de Fernando Namora «Poema para iludir a vida» (Mar de Sargaços):
(…)
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.