Elsa Ligeiro
LEITURA & CONHECIMENTO
A Leitura é uma relação íntima entre um autor e a disponibilidade e a atenção de quem o lê.
Num poema, a experiência poderá atingir e competir com a música; mas ao mergulhar a fundo nas palavras, no grande poema contínuo (como nos ensina Herberto Helder), estabelecemos contacto não só com a exaltação da beleza, mas também com as grandes questões que nos perseguem enquanto seres humanos.
Felizes os que dispõem dos cinco sentidos e de um cérebro que acolhe a escrita através da Leitura, armazenando de forma infinitamente complexa informações necessárias à construção da memória e da consciência humana.
A Leitura, dizem-nos os cientistas, é a mais extraordinária defesa contra o envelhecimento precoce, e um exercício que nos impede a perda da memória; e, para quem encontra tempo para a Leitura, ainda dispõem do extraordinário poema de Elizabeth Bishop sobre a arte da perda e o caminho possível para o envelhecimento.
Será ainda uma fonte de liberdade secreta: contra a tirania, o controle ou a imposição de participar em guerras, genocídios, e outras invenções humanas em que o território e as suas riquezas (também estratégicas) são fonte de cobiça.
Para quem tem dúvidas, aconselho a leitura dos testemunhos dos portugueses que “fugiram” para uma Europa civilizada quando a ditadura portuguesa insistia na guerra colonial.
A Leitura permite-nos o conhecimento de eras, de povos e nações já extintas, em que os bárbaros com toda a sua violência e sangue, nunca conseguiram aniquilar totalmente os registos da sua barbárie: há sempre algo que resiste para os arqueólogos os encontrarem.
Vai além do suporte em livro; como a Leitura tumular que experienciei no dia 11 de julho, no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, no meio de uma devoção comovente a uma Rainha Santa que o povo venera como apoio aos seus infortúnios.
Devoção que se mantém intacta, apesar do seu desaparecimento físico há 690 anos. São leituras extraordinárias que nos trazem mais perguntas que respostas.
Há tentativas de explicar a necessidade da fé, de compreender a história da edificação de igrejas e panteões para resguardar da poeira dos séculos a presença da grandeza ou do infortúnio.
Mas a Leitura das lápides que pisamos quando acedemos a um altar de um Mosteiro como o de Santa Cruz, revelam presenças esquecidas que nos lembram outras vidas, outras andanças e outras guerras também elas fixadas por documentos a que temos acesso através da Leitura.
Conhecer esse chão (pisá-lo com as suas inscrições em mármore) é encontrar um “link” para os séculos XIII e XIV, através da Leitura de um trabalho de António de Vasconcelos que, através da edição, tornei acessível a muitos leitores.
É também esse o ofício da edição, não só apresentar novos autores, mas dar a Ler investigações que nos abrem horizontes sobre um outro tempo; e sobre homens e mulheres que através da memória conservamos no presente.
Conhecer a “guerra” da fortuna e de poder entre o Mosteiro de Santa Cruz e Dona Mór Dias, senhora de grandes posses que sonhou com um Convento de Clarissas na margem esquerda do rio Mondego, é também participar na história activa de uma cidade e de um país
Recordar através da Leitura uma guerra de poder religioso, que, como todo o poder, aspirava a aumentar a sua riqueza que garantisse o seu domínio; é um processo de Leitura fascinante sobre um território e um mito comum.
Saber um pouco mais desses Crúzios gestores de corpos e almas, que durante séculos governaram e acolhiam fortunas em Coimbra, e devido à sua avidez quase impediram D. Mór Dias de construir o seu Convento, hoje Mosteiro, que Isabel de Aragão, Rainha de Portugal, reconstruiu e onde repousou o corpo após a sua morte, a 4 de julho de 1336.
Rainha que depois de morta Roma acolheu como Santa, em 1625, e que graças à Leitura da biografia da Rainha Santa Isabel, escrita alguns séculos mais tarde, por António de Vasconcelos, ainda hoje podemos ler com espanto o seguinte relato:
“… no ano do jubileu de 1600 era queimado vivo, em presença de uma multidão enorme de forasteiros, o frade e apostata Giordano Bruno, pelo Tribunal da Santa Inquisição romana; no ano do jubileu imediato de 1625, a 25 de maio, as chusmas de peregrinos, que o mesmo motivo religioso chamara a Roma, assistem à solene canonização de D. Isabel, a virtuosíssima Rainha de Portugal”, informando os leitores de que a narrativa histórica também nos ajuda a manter a memória não só dos que reconhecemos como Santos, mas também o Conhecimento que a barbárie religiosa não conseguiu apagar.
Graças à escrita e à Leitura.