Geoconservation Research publica trabalhos sobre o património paleontológico do Geopark Naturtejo
A revista Geoconservation Research publicou quatro artigos do património paleontológico dos geoparques mundiais da UNESCO na Europa, sendo esta a oportunidade de fazer uma revisão do registo fóssil conhecido no território do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, que inclui os concelhos de Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Nisa, Oleiros, Penamacor, Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão. A revisão permitiu expandir em muito o número de espécies fósseis identificadas, assim como rever classificações taxonómicas com largas décadas de existência, uma vez que os primeiros trabalhos paleontológicos na região foram publicados há 137 anos, com o estudo pioneiro do paleontólogo Português Joaquim Nery Delgado.
Carlos Neto de Carvalho coordenou uma equipa internacional na revisão das marcas de atividade palebiológica preservadas nas rochas quartzíticas do Parque Icnológico de Penha Garcia. Este é um dos geomonumentos de referência do Geopark Naturtejo e o seu valor internacional permitiu a integração de todo o território na Rede Global de Geoparques, hoje incluída no Programa Internacional de Geociências e Geoparques da UNESCO. A importância destes icnofósseis, de que se destaca as formas de Cruziana, reflete-se na melhor compreensão de um dos principais períodos da evolução da vida na Terra, quando se deu a diversificação de estratégias de ocupação dos habitats oceânicos. De salientar que, muito recentemente, o Parque Icnológico de Penha Garcia foi um dos sítios paleontológicos entre 45 do registo fóssil mundial integrados no estudo coordenado pelo investigador Andrea Baucon, da Universidade de Génova, sobre os processos de evolução biológica nos fundos marinhos, que foi a capa de junho da revista Geology, da Sociedade Geológica Americana, e que contou com o apoio da Câmara de Idanha-a-Nova.
O coordenador científico do Geopark Naturtejo, com 23 anos de experiência como paleontólogo, coordenou ainda um segundo artigo publicado na Geoconservation Research, sobre uma extraordinária forma de comportamento animal conhecida como Daedalus e que pode ser encontrada em formações geológicas contemporâneas de Penha Garcia, datadas de há mais de 470 milhões de anos, mas que é particularmente abundante na Serra do Muradal, em Oleiros, e também no Geoparque de Villuercas-Ibores-Jara, na província de Cáceres, Espanha. Neste trabalho participaram paleontólogos da Universidade da Extremadura, da Diputación de Cáceres e os coordenadores deste Geoparque UNESCO.
De relembrar que as intrincadas formas de Daedalus de Oleiros viram-se incluídas num documentário com o título em português, A Importância de ser Duro, sobre a relevância evolutiva da aquisição de esqueleto mineralizado que determinou a existência humana enquanto seres biológicos.
As formações de origem sedimentar do período Ordovícico, com idades compreendidas entre os 467 e os 445 milhões de anos, são extremamente fossilíferas no Geopark Naturtejo. No entanto, a maior parte dos sítios paleontológicos não era revista desde a década de 70. Assim, a equipa da paleontóloga Sofia Pereira, especialista em trilobites, fez uma revisão das faunas fósseis de jazidas clássicas e de novos sítios paleontológicos encontradas por ela e por Carlos Neto de Carvalho, tendo revisto e ampliado significativamente o número de espécies conhecidas para esta região, com destaque para Vale Feitoso, entre Penha Garcia e Termas de Monfortinho, Serra do Muradal entre Orvalho e Vilar Barroco, e Vale do Cobrão a Barroca da Senhora, em Vila Velha de Ródão. Apenas em Monforte da Beira não foi reconhecido um sítio descoberto nos finais do Século XIX 19, mas os exemplares preservados na Litoteca do Laboratório Nacional de Energia e Geologia foram alvo de revisão taxonómica.
Apesar do estudo paleontológico exaustivo de algumas formações geológicas do Geopark Naturtejo agora publicado em quatro artigos, existem algumas formações que ainda não tiveram a oportunidade de serem estudadas, designadamente o Rio Erges com alguns dos fósseis mais antigos conhecidos na Península Ibérica, com mais de 565 milhões de anos, em trabalho que envolve determinações geocronológicas que está a ser desenvolvido pelo laboratório GeoBioTech da Universidade Nova de Lisboa. Outro dos estudos corresponde ao único sítio conhecido do denominado período Silúrico, cerca de 435 milhões de anos, no território do Geopark Naturtejo, encontrado em 2008 perto de Perdigão, em Vila Velha de Ródão, e nunca estudado, agora alvo de uma equipa da Universidade de Coimbra. Por fim, os depósitos continentais conhecidos como Grupo da Beira Baixa, onde no início da década de 90 foram encontrados troncos de árvores fossilizados com menos de 15 milhões de anos, três destes salvos e integrando as instalações da Casa de Artes e Cultura do Tejo e do Museu Arqueológico de Vila Velha de Ródão, que já mostraram ser do interesse do Centro Português de Geo-História e Pré-História.
Para este volume especial da revista Geoconservation Research foi ainda submetido e aceite para publicação um trabalho do arqueólogo Luís Raposo e do paleontólogo Silvério Figueiredo que faz a revisão do importante sítio da Foz do Enxarrique, descoberto há mais de 40 anos, em muitos aspetos relevante para o conhecimento das faunas durante o último período glacial, recentemente datado de há mais de 40 mil anos.